Crepúsculo civil, náutico e astronômico: o que é cada um
O crepúsculo tem três fases pela altura do sol: civil (até 6 graus), náutico (12) e astronômico (18). Veja o que se vê em cada uma e por que dura mais no sul.
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Longe do equador o sol desce de esguelha e demora mais para afundar até a noite escura. Veja a tabela real: Fortaleza 69 min, Chuí ate 104.
O crepúsculo dura mais no Sul do Brasil porque, quanto mais longe do equador, mais inclinado é o ângulo com que o sol desce abaixo do horizonte. Perto da linha do equador o sol mergulha quase na vertical e afunda os 18° que definem a noite escura em pouco mais de uma hora. Em latitudes altas, como o Rio Grande do Sul, ele desce de esguelha, num arco deitado, e leva bem mais tempo para vencer a mesma profundidade. O verão estica ainda mais o efeito, porque o arco do sol fica mais inclinado. Na prática: o céu de Fortaleza escurece de vez em cerca de 69 minutos no equinócio, enquanto o de Chuí, no extremo sul, pode levar 104 minutos em pleno verão. Não é impressão de quem viaja; é geometria, e o motor do site mede a diferença cidade por cidade.
Crepúsculo é o tempo em que o céu ainda tem claridade mesmo com o sol abaixo do horizonte. Ele termina, de vez, quando o sol chega a 18° abaixo da linha do horizonte, ponto em que o último brilho de fundo some e começa a noite astronômica. Então a pergunta sobre a duração vira uma pergunta sobre tempo: quanto o sol demora para ir do horizonte até esses 18° de profundidade?
E aí está o segredo. A velocidade com que o sol some não é a mesma em todo lugar. O que muda não é a rapidez do sol, que é sempre a mesma, e sim a direção em que ele se move em relação ao horizonte. Se ele desce reto para baixo, cruza os 18° depressa. Se desce de lado, escorregando quase paralelo ao horizonte, percorre um caminho muito mais longo para descer a mesma altura, e o crepúsculo se arrasta.

Imagine o caminho que o sol traça no céu ao longo do dia. Perto do equador, esse arco é quase perpendicular ao horizonte: o sol sobe reto pela manhã e desce reto à tarde, cravando o horizonte num ângulo próximo de 90°. Como ele afunda quase na vertical, os 18° abaixo do horizonte são vencidos rápido, e o crepúsculo é curto o ano inteiro.
Agora leve o mesmo sol para o Sul do Brasil. Quanto maior a latitude, mais inclinado fica o arco em relação ao horizonte. Em Porto Alegre ou no Chuí, o sol não desce reto; ele desliza na diagonal, aproximando-se do horizonte num ângulo mais raso. Para descer os mesmos 18° de profundidade, precisa percorrer um trecho de céu bem maior, e isso leva mais tempo. É exatamente o começo, ainda fraco, do mecanismo que nos círculos polares produz o sol da meia-noite: lá o sol desce tão de raspão que nem chega aos 18°, e a noite escura simplesmente não vem.
A geometria fica evidente quando se colocam os números lado a lado. A tabela abaixo mostra, para oito cidades de norte a sul, quanto tempo o céu leva do pôr do sol até a noite escura completa (o sol a 18° abaixo do horizonte), no equinócio de março e no auge do verão do Sul, em dezembro. Tudo calculado pelo motor astronômico do site.
| Cidade | Latitude | Equinócio (20/mar) | Solstício de verão (21/dez) |
|---|---|---|---|
| Fortaleza, CE | 3,7° S | 69 min | 76 min |
| Salvador, BA | 13,0° S | 71 min | 79 min |
| Brasília, DF | 15,8° S | 71 min | 81 min |
| Rio de Janeiro, RJ | 22,9° S | 75 min | 87 min |
| São Paulo, SP | 23,5° S | 75 min | 88 min |
| Curitiba, PR | 25,4° S | 76 min | 90 min |
| Porto Alegre, RS | 30,0° S | 80 min | 97 min |
| Chuí, RS | 33,7° S | 83 min | 104 min |
Leia a tabela de cima para baixo e o padrão salta: a duração cresce sem parar conforme a latitude aumenta. Entre Fortaleza e Chuí, no verão, são 28 minutos de diferença, quase meia hora a mais de céu iluminado depois que o sol se põe. Quem se muda do Nordeste para o Sul percebe isso na pele: o entardecer gaúcho parece não acabar, e a sensação é real.
Repare que, em toda cidade, a coluna de dezembro é maior que a de março. No verão do hemisfério sul, o crepúsculo dura mais que no equinócio, e a diferença cresce quanto mais ao sul se está. Em Chuí saltam 21 minutos entre o equinócio (83 min) e o solstício de verão (104 min).
A razão é a mesma inclinação, agora acentuada pela estação. No verão, o sol nasce e se põe num ponto deslocado para o sul do horizonte, e o arco dele fica ainda mais deitado ao cruzar a linha do horizonte naquela latitude. Ângulo mais raso significa mergulho mais lento e crepúsculo mais longo. No inverno acontece o contrário, o arco fica um pouco mais em pé e o crepúsculo encurta. Por isso o extremo sul concentra os dois efeitos: latitude alta e verão longo, que se somam. Essa dança do sol ao longo do ano é a mesma que muda a duração do dia.
Nem todo mundo fica olhando o céu até os 18°. Para a vida prática, o que importa é o fim do crepúsculo civil, o momento em que falta luz para andar na rua sem iluminação, os 6° abaixo do horizonte. Esse trecho, o mais útil do dia, também se estica no Sul, embora menos que o crepúsculo completo.
| Cidade | Latitude | Equinócio (20/mar) | Solstício de verão (21/dez) |
|---|---|---|---|
| Fortaleza, CE | 3,7° S | 21 min | 23 min |
| São Paulo, SP | 23,5° S | 23 min | 25 min |
| Porto Alegre, RS | 30,0° S | 24 min | 28 min |
| Chuí, RS | 33,7° S | 25 min | 29 min |
Em Fortaleza, entre o pôr do sol e o breu civil passam cerca de 21 minutos. No Chuí, no verão, são 29. Oito minutos podem parecer pouco, mas somam ao longo dos meses de dias longos e explicam por que, no Sul, dá para jantar na varanda com o sol já posto e o céu ainda claro. Para saber a que horas isso acontece na sua cidade em cada época, use a página de crepúsculo e o calendário de nascer e pôr do sol.
Uns minutos a mais de céu iluminado parecem detalhe, mas mudam coisas concretas. Para quem fotografa, o Sul é generoso: a golden hour, com o sol baixo e a luz dourada, e a hora azul, aquele azul profundo do começo do crepúsculo civil, duram mais nas latitudes altas. Sobra tempo para compor a foto, trocar de lente, testar exposições, coisa que no Nordeste tem de ser feita às pressas porque a luz cai rápido.
Para o dia a dia, o efeito é o entardecer que se estende. No verão gaúcho, com o sol se pondo tarde e o crepúsculo longo, ainda há claridade para uma caminhada, um jogo no campo ou o jantar na varanda muito depois do pôr do sol. Já quem cresceu perto do equador conhece o breu que desaba logo em seguida: no Norte, o dia acaba de forma mais abrupta, quase sem meio-termo entre o sol posto e a noite fechada. A iluminação pública, os horários de acender faróis e o próprio ritmo das cidades acompanham, de leve, essa diferença de latitude.
Se você continuar descendo o dedo pelo mapa, o efeito não para de crescer, ele desanda. Muito além do Chuí, passando dos 48° ou 49° de latitude, existe uma época do ano em que o sol nunca chega aos 18° abaixo do horizonte à meia-noite. O crepúsculo astronômico da tarde se emenda direto no da manhã, e a noite escura não acontece. São as chamadas noites brancas, famosas em cidades como São Petersburgo, na Rússia, em junho. Mais ao norte ainda, dentro do círculo polar, nem o crepúsculo civil termina, e o sol fica visível a noite toda.
O Brasil não alcança essas latitudes, por sorte de quem gosta de noite estrelada: mesmo no extremo sul, em Chuí, a noite escura sempre chega, ainda que devagar. Mas o mecanismo é o mesmo, só levado ao extremo. O entardecer que parece não acabar no Rio Grande do Sul é a versão suave do fenômeno que, perto dos polos, apaga a noite por semanas. Para ver os três estágios do crepúsculo em detalhe e por que cada um existe, vale o guia de crepúsculo civil, náutico e astronômico.