Cor do pôr do sol: por que o pôr do sol é vermelho?
A cor do pôr do sol fica mais intensa em dias com poeira ou fumaça no ar, e a explicação física do fenômeno surgiu no século XIX.
Ler artigo →Ciência do céu
A cor do céu durante o dia depende da interação da luz do sol com o ar.
O céu é azul porque as moléculas de nitrogênio e oxigênio do ar espalham a luz azul do sol muito mais do que a vermelha. Esse espalhamento, descrito por Lord Rayleigh em 1871, cresce com o inverso da quarta potência do comprimento de onda: a luz azul, de onda curta, é jogada para todos os lados da abóbada celeste, enquanto a vermelha, de onda longa, segue quase em linha reta. De qualquer ponto do céu longe do sol, o que chega aos olhos do observador é sobretudo essa luz azul reespalhada. A cor vem das moléculas do próprio ar limpo, e não da poeira nem do reflexo do mar, e o efeito seria o mesmo num planeta sem uma partícula de sujeira.
O sol emite um espectro contínuo que, aos nossos olhos, soma branco, mas dentro dele estão todas as cores do arco-íris. Cada cor é uma onda com um comprimento diferente. O violeta e o azul são ondas curtas, entre 380 e 480 nanômetros; o verde fica no meio, perto de 550 nm; o vermelho é longo, perto de 700 nm. Um nanômetro é um milionésimo de milímetro, e essa pequena diferença de tamanho decide para onde cada cor vai quando atinge o ar.
O sol não muda de cor ao longo do dia. Ele manda o mesmo espectro de manhã, ao meio-dia e ao entardecer. O que muda é o efeito da atmosfera sobre cada onda no trajeto entre o topo do ar e a retina do observador. Esse mesmo mecanismo explica o céu azul de dia e o pôr do sol vermelho.
Quando a luz encontra partículas bem menores que o seu comprimento de onda, como uma molécula de N2 ou O2, ela não é absorvida nem refletida como num espelho. A molécula reemite a luz em todas as direções. Esse desvio para os lados é o espalhamento. Rayleigh demonstrou que a intensidade dele é inversamente proporcional à quarta potência do comprimento de onda. Elevar à quarta potência transforma uma diferença pequena de cor numa diferença enorme de espalhamento.
Pela conta de Rayleigh, uma onda azul de 450 nm espalha cerca de (700 / 450) elevado a 4, quase 6 vezes mais que uma onda vermelha de 700 nm. Uma onda violeta de 400 nm espalha quase 9 vezes mais. Por isso o azul se espalha por toda a cúpula do céu e chega ao observador de qualquer direção, menos da direção exata do sol. O vermelho, quase intocado, atravessa a atmosfera quase reto. Na tabela, o espalhamento de cada cor aparece em relação ao vermelho.
| Cor | Comprimento de onda | Espalhamento relativo |
|---|---|---|
| Violeta | 400 nm | ~9,4× |
| Azul | 450 nm | ~5,8× |
| Ciano | 490 nm | ~4,2× |
| Verde | 550 nm | ~2,7× |
| Amarelo | 580 nm | ~2,1× |
| Laranja | 620 nm | ~1,6× |
| Vermelho | 700 nm | 1× (referência) |

Pela lei de Rayleigh, o violeta deveria dominar, já que é a cor mais espalhada de todas. O céu, porém, parece azul. A resposta é a soma de três fatores que favorecem o azul.
Somados os três efeitos, o cérebro monta um azul, com um leve toque de violeta que a maioria das pessoas nem percebe. Pessoas sem o cristalino, a lente natural do olho, relatam enxergar parte do ultravioleta como um branco azulado ou violeta, porque é essa lente que filtra a faixa.
Num dia limpo, o azul logo acima do observador é profundo, quase marinho. Perto do horizonte ele fica pálido, quase branco-azulado. Na direção do zênite a luz cruza a camada mais fina de atmosfera, e o azul chega puro. Rente ao horizonte, a linha de visada atravessa uma coluna de ar dezenas de vezes mais comprida.
Nesse caminho longo acontecem duas coisas ao mesmo tempo. O azul é espalhado tantas vezes, e reespalhado de novo, que perde saturação e se mistura. E um pouco da luz de outras cores também acaba desviada na direção do observador. O resultado é uma mistura mais próxima do branco. É o começo do mesmo efeito que, com o sol já no horizonte, filtra o azul por inteiro e deixa o disco vermelho.
A quantidade de ar que a luz atravessa depende de quão alto o sol está. Os astrônomos chamam essa espessura de massa de ar, que vale 1 com o sol a pino e cresce rápido conforme ele desce. No Brasil o sol chega muito alto ao meio-dia, o que deixa o céu de um azul intenso na maior parte do país. A tabela traz a altura máxima do sol ao meio-dia solar em algumas capitais, calculada pelo motor astronômico do site, que mostra o quanto a camada de ar atravessada pela luz diminui ao meio-dia.
| Cidade | Meio-dia de dezembro | Meio-dia de junho |
|---|---|---|
| Fortaleza, CE | 70° | 63° |
| Recife, PE | 75° | 59° |
| Brasília, DF | 82° | 51° |
| São Paulo, SP | 90° | 43° |
| Porto Alegre, RS | 83° | 37° |
Em São Paulo, em dezembro, o sol passa praticamente no zênite, quase 90 graus, o ponto exato acima do observador. Nesse instante a luz cruza a menor coluna de ar possível e o azul fica no auge. Em junho, o mesmo sol paulistano mal chega a 43 graus ao meio-dia, cruza mais atmosfera e o azul sai mais lavado. O ângulo do sol ao meio-dia está explicado em detalhe no artigo o que é o zênite e o meio-dia solar.
A cor do céu foi estudada por séculos. No século XIX a explicação corrente atribuía a cor à poeira ou ao vapor d'água. Em 1869, o irlandês John Tyndall montou um tubo de vidro com uma suspensão de partículas finas e mostrou que ela espalhava a luz azul e deixava passar a vermelha, reproduzindo em miniatura o céu e o pôr do sol. Ficou conhecido como efeito Tyndall, mas ainda apontava para as partículas.
Rayleigh fechou a conta em 1871. Ele provou que a poeira é dispensável, porque as próprias moléculas do ar produzem o azul, e a dependência com a cor tinha de ser a da quarta potência do comprimento de onda. Décadas depois, Albert Einstein, em 1910, refinou a explicação ligando o espalhamento às flutuações de densidade do gás, os pequenos aglomerados de moléculas que se formam e desfazem o tempo todo. Por isso o ar limpo, sobre o oceano ou num deserto, continua azul de dia.
Outros corpos do sistema solar mostram o mesmo mecanismo com resultados diferentes. Na Lua, que não tem atmosfera, não há espalhamento, e o céu é preto mesmo em pleno dia lunar, com o sol branco e as estrelas visíveis ao mesmo tempo.
Em Marte o efeito se inverte. O ar marciano é rarefeito e cheio de poeira fina em suspensão, que espalha melhor a luz avermelhada. O resultado é um céu diurno amarronzado, ocre, e um pôr do sol azulado em torno do disco solar. As sondas da NASA já fotografaram esses crepúsculos azuis de Marte. Em Titã, a lua de Saturno, uma bruma laranja de hidrocarbonetos domina o céu. Em cada corpo, a cor do céu depende do que há na atmosfera.
A dispersão de Rayleigh dá o azul de base, e o ar real tem outros componentes. Vapor d'água, poeira, fumaça e aerossóis introduzem a chamada dispersão de Mie, que quase não depende da cor e espalha todas as ondas de forma parecida. É por isso que um dia úmido e abafado, ou uma cidade com muita poluição, tem um céu mais esbranquiçado e leitoso, com azul menos saturado. Os dias de ar seco e frio, típicos do inverno no Centro-Sul do Brasil depois de uma frente fria, têm azul mais profundo.
Logo depois de uma chuva forte, com a atmosfera limpa, o céu costuma ter um azul intenso; numa tarde seca e empoeirada de fim de inverno, fica mais pálido. O sol é o mesmo nos dois casos, e a diferença está no que o ar tem para espalhar. Os horários em que o sol fica mais alto em cada cidade estão nos calendários do sol e no horário de nascer e pôr do sol.
O céu azul e o pôr do sol vermelho têm a mesma causa. O céu azul de dia é a luz azul espalhada chegando de toda parte. O pôr do sol vermelho é o vermelho que sobra depois que o caminho longo pela atmosfera removeu o azul. O artigo por que o pôr do sol é vermelho detalha a segunda parte, e o artigo sobre a queda da luz do dia num eclipse do sol trata de outro caso em que a cor do céu muda.