Dia mais longo e mais curto do ano no Brasil, por cidade
O dia mais longo cai no solstício de dezembro e o mais curto no de junho. A diferença vai de minutos em Macapá a 4 horas em Pelotas. Tabela por latitude.
Ler artigo →Astronomia prática
O sol da meia-noite e a noite polar só ocorrem acima de 66,6 graus. O sul do Brasil fica a 33 graus, longe demais. Entenda a conta e a diferença por cidade.
O sol da meia-noite (o sol que fica 24 horas sem se pôr) e a noite polar (o sol que não nasce) só acontecem acima de cerca de 66,6° de latitude, dentro dos círculos polares. O ponto mais ao sul do Brasil, no arroio Chuí (RS), fica a cerca de 33,7° S. Falta metade do caminho, quase 33° de latitude, para chegar ao círculo polar. Por isso em nenhuma cidade brasileira o sol deixa de nascer ou de se pôr, nem no dia mais longo do ano. Aqui o sol sempre sobe e sempre desce; o que muda entre o verão e o inverno é só quantas horas ele passa no céu.
O eixo da Terra é inclinado cerca de 23,4° em relação ao plano da sua órbita. Essa inclinação é a origem das estações, e é também a razão de o sol da meia-noite existir. No verão de cada hemisfério, o polo daquele lado fica apontado na direção do sol. A região em volta dele recebe luz durante todo o giro do planeta, as 24 horas do dia. Um lugar bem ao norte, no verão do Hemisfério Norte, gira sem que o sol chegue a passar por baixo do horizonte. O sol some no rumo do norte, roça a linha do horizonte e volta a subir, sem nunca se pôr.
Seis meses depois a Terra está do outro lado do sol e a cena se inverte. O mesmo polo passa a apontar para longe, e aquele lugar entra na noite polar: o sol fica abaixo do horizonte o dia inteiro e não nasce. Sol da meia-noite e noite polar são os dois lados da mesma moeda, o verão e o inverno de quem vive perto dos polos. Onde há um no verão, há o outro no inverno, no mesmo lugar.

Existe uma regra simples que diz exatamente onde o sol da meia-noite pode acontecer. O sol fica 24 horas acima do horizonte quando a latitude do lugar somada à declinação do sol chega a 90°. A declinação é a "altura" do sol em relação ao equador celeste, o quanto ele está ao norte ou ao sul da linha do equador projetada no céu. Ela varia ao longo do ano entre -23,4° e +23,4°, exatamente o valor da inclinação do eixo.
Como a declinação nunca passa de 23,4°, a menor latitude em que o sol pode deixar de se pôr é 90° menos 23,4°, ou seja 66,6°. Essa linha tem nome: círculo polar ártico ao norte, círculo polar antártico ao sul. Bem em cima dela, o fenômeno dura só um dia por ano, o do solstício, e mesmo assim de raspão. Quanto mais perto do polo, por mais tempo ele dura, até chegar a seis meses de dia e seis de noite bem em cima do polo geográfico.
Ou seja: mesmo no ponto mais extremo do país, falta a metade do caminho. Por isso o sol da meia-noite nunca acontece em território brasileiro. A mesma conta explica por que o efeito também não aparece nas capitais mais austrais, como Porto Alegre (30° S) ou Florianópolis (27,6° S): todas estão a mais de 36° de latitude do círculo polar.
Quem viaja a Tromsø ou a Reykjavík em junho descreve sempre a mesma estranheza. O sol não faz o arco de sempre, subindo a leste e caindo a oeste. Ele descreve um círculo inteiro ao redor do observador, quase paralelo ao horizonte. À meia-noite, está baixo, no rumo do norte; ao meio-dia, mais alto, no rumo do sul. Nunca encosta na linha do horizonte. A luz de meia-noite é dourada e horizontal, parecida com a nossa golden hour, mas que não termina nunca. É por isso que fotógrafos peregrinam para lá.
O corpo estranha. Sem o escuro para marcar a passagem do tempo, o sono se desregula, e muita gente dorme de cortina blackout ou máscara. É o mesmo motivo pelo qual a luz da manhã ajusta o relógio biológico: sem o contraste entre dia e noite, o organismo perde a referência que usa para regular o ciclo de vigília e descanso.
Os valores abaixo são a duração do dia mais longo do ano (o solstício de verão de cada hemisfério), calculada pelo motor astronômico do site. Repare como a duração cresce com a latitude, até virar 24 horas ao cruzar o círculo polar.
| Local | Latitude | Maior dia do ano | Sol da meia-noite? |
|---|---|---|---|
| Macapá, AP | 0,0° | 12h08 | não |
| Boa Vista, RR | 2,8° N | 12h17 | não |
| São Paulo, SP | 23,5° S | 13h35 | não |
| Porto Alegre, RS | 30,0° S | 14h05 | não |
| Pelotas, RS | 31,8° S | 14h14 | não |
| Chuí, RS (extremo sul do país) | 33,7° S | 14h24 | não |
| Ushuaia, Argentina | 54,8° S | ~17h15 | não |
| Círculo polar, a 66,6° de latitude | |||
| Tromsø, Noruega | 69,6° N | 24 h | sim |
| Longyearbyen, Svalbard | 78,2° N | 24 h | sim |
Ushuaia, no extremo sul da Argentina, é um bom limite para entender a fronteira. Mesmo sendo uma das cidades mais austrais do mundo, ela fica fora do círculo polar, a cerca de 54,8° S. Tem dias de verão longuíssimos, de mais de 17 horas, mas o sol sempre acaba se pondo, ainda que perto da meia-noite. Já Tromsø e Longyearbyen, ao cruzar a linha dos 66,6°, entram no regime de 24 horas de luz por semanas seguidas.
Dentro do país, a diferença entre o norte e o sul é grande, ainda que nenhuma cidade chegue perto do sol da meia-noite. Perto da linha do equador, o dia dura quase o mesmo o ano inteiro. Bem ao sul, o verão traz dias visivelmente mais longos e invernos mais curtos.
Perto do equador (Macapá, Boa Vista), o dia e a noite ficam quase sempre em torno de 12 horas cada, o ano inteiro. No extremo sul (Porto Alegre, Pelotas, Chuí), a diferença entre o dia mais longo e o mais curto passa de quatro horas. Repare em Boa Vista, a única capital ao norte do equador: lá o maior dia cai em junho, e não em dezembro, porque o verão do Hemisfério Norte é o de junho. Para ver essa curva na sua cidade dia a dia, use os calendários do sol. E se a dúvida é sobre o dia mais longo e mais curto do ano por cidade, há uma tabela completa por latitude.
Onde há sol da meia-noite no verão, há noite polar no inverno. Em Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard, o sol não nasce de meados de novembro até o fim de janeiro, cerca de dois meses e meio. Contando a fase de penumbra permanente, em que nem chega a clarear direito, o período escuro se estende por quase quatro meses. Depois, no verão, são cerca de quatro meses seguidos em que o sol não se põe.
Nada disso ocorre no Brasil. Aqui o dia e a noite sempre se revezam, e mesmo no auge do inverno o sol nasce todo dia. O que muda é a duração e o ângulo. No inverno o sol nasce mais tarde, sobe menos e se põe mais cedo, e por ficar mais baixo no céu deixa os crepúsculos mais longos e a golden hour mais generosa nos meses frios. Se quiser localizar o norte por esse sol baixo de inverno, dá para usar a própria posição do astro, como explica o guia de como achar o norte pelo sol.
Mesmo sem sol da meia-noite, latitudes altas podem ter o chamado crepúsculo que não acaba. Em cidades bem ao sul, em pleno verão, o céu pode não escurecer por completo durante a noite porque o sol fica pouco abaixo do horizonte, a poucos graus. Não é sol da meia-noite, já que o sol está posto, mas é o mesmo mecanismo geométrico, só que mais fraco. No Rio Grande do Sul, nas noites claras de dezembro e janeiro, o horizonte a sul e a leste guarda um resto de luz azulada até tarde. É a versão brasileira, discreta, do fenômeno polar. Quem quiser entender as três faixas de crepúsculo pode ler sobre o crepúsculo civil, náutico e astronômico.
Muita gente imagina que, no sol da meia-noite, o sol fica parado no céu. Não fica. Ele se move o tempo todo, cerca de 15° por hora, como em qualquer lugar. A diferença é que o círculo que ele descreve não cruza o horizonte, então ele nunca se põe. Outro engano é achar que meia-noite significa escuridão por definição. Meia-noite é só um número no relógio, ligado ao fuso horário, não à presença do sol. E há quem confunda o sol da meia-noite com o horário de verão. São coisas separadas: o horário de verão mexe no relógio, não no céu; o sol da meia-noite é astronomia pura, independente de qualquer decreto.