Relógio de sol: como funciona (e por que não bate com o celular)
O relógio de sol marca a hora pela sombra do gnômon, a haste voltada ao polo. Quase nunca bate com o celular pelo fuso e a longitude. Veja como montar um.
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O Brasil tem quatro fusos, de UTC-2 a UTC-5: são 4.300 km de leste a oeste, largo demais para um só. Veja as leis, os estados e o efeito no horário do sol.
O Brasil tem quatro fusos horários porque é largo demais para caber em um só: são cerca de 4.300 km de leste a oeste, e a Terra gira 15 graus de longitude por hora. Os fusos vão de UTC−2 (arquipélago de Fernando de Noronha) a UTC−5 (Acre e oeste do Amazonas), passando por UTC−3 (Brasília, todo o litoral e a maior parte do país) e UTC−4 (Amazonas, Mato Grosso, Mato Grosso do Sul, Rondônia, Roraima). É por isso que, quando são 18h em Recife, ainda são 15h no Acre, e o sol se põe em horas de relógio bem diferentes de uma ponta a outra.
Fuso horário existe porque o meio-dia não acontece ao mesmo tempo no planeta todo. Quando o sol está a pino em Recife, ele ainda está subindo no Acre, a milhares de quilômetros a oeste. A Terra dá uma volta de 360 graus em 24 horas, o que dá 15 graus de longitude por hora. Cada faixa de 15 graus, portanto, "atrasa" o sol em uma hora inteira em relação à vizinha do leste.
Antes dos trens e do telégrafo, cada cidade acertava o relógio pelo próprio sol, e ninguém se importava que a hora de uma vila fosse diferente da vila ao lado. Quando as ferrovias e as comunicações encurtaram as distâncias, essa bagunça virou um problema prático, e o mundo adotou os fusos: faixas em que todos combinam usar a mesma hora, mesmo que o sol de cada ponto esteja um pouco adiantado ou atrasado. O Brasil, por ser continental, precisou de quatro dessas faixas.

Do leste para o oeste, seguindo o sol, os fusos brasileiros são estes.
É por isso que uma partida de futebol que começa às 21h em São Paulo pega o torcedor do Acre às 19h, ainda com sol no céu em boa parte do ano. E é por isso também que o Réveillon "chega" primeiro em Fernando de Noronha e por último no Acre, com três horas de diferença dentro do mesmo país.
Os quatro fusos não são novidade. O Decreto 2.784, de 18 de junho de 1913, assinado pelo presidente Hermes da Fonseca e em vigor a partir de 1º de janeiro de 1914, já dividia o território em quatro fusos, de UTC−2 a UTC−5, tomando como base o meridiano de Greenwich. Foi esse mesmo decreto que colocou o Observatório Nacional, no Rio de Janeiro, como o guardião oficial da hora certa brasileira, papel que a instituição exerce até hoje.
A configuração ficou estável por quase um século, até que a Lei 11.662, de 2008, reduziu o país a três fusos: o Acre e o oeste do Amazonas passaram de UTC−5 para UTC−4, e o oeste do Pará foi de UTC−4 para UTC−3. A mudança foi impopular, sobretudo no Acre, onde as pessoas reclamaram que o sol nascia e se punha em horas que não combinavam com a rotina. Houve até um plebiscito estadual pedindo a volta ao horário antigo.
O recuo veio com a Lei 12.876, de 30 de outubro de 2013, em vigor desde 10 de novembro daquele ano, que restaurou os quatro fusos e devolveu ao Acre e ao oeste do Amazonas o UTC−5. É a lei que vale atualmente. A lição da história: fuso não é só astronomia, é também rotina das pessoas, e mexer nele tem custo.
Aqui está a parte que interessa a quem acompanha o nascer e o pôr do sol. Dentro de um mesmo fuso, todas as cidades usam a mesma hora de relógio, mas o sol de cada uma está adiantado ou atrasado conforme a longitude. A tabela mostra a que horas o sol cruza o ponto mais alto do céu (o meio-dia solar) em várias cidades no equinócio de setembro, quando o dia dura quase 12 horas em todo o país. Os valores saem do motor astronômico do site.
| Cidade | Fuso | Longitude | Meio-dia solar (relógio) |
|---|---|---|---|
| Fuso UTC−2 | |||
| Fernando de Noronha, PE | UTC−2 | 32,4° O | 12h02 |
| Fuso UTC−3 (Brasília) | |||
| Recife, PE | UTC−3 | 34,9° O | 11h12 |
| São Paulo, SP | UTC−3 | 46,6° O | 11h59 |
| Brasília, DF | UTC−3 | 47,9° O | 12h04 |
| Fuso UTC−4 (Amazonas) | |||
| Campo Grande, MS | UTC−4 | 54,6° O | 11h31 |
| Cuiabá, MT | UTC−4 | 56,1° O | 11h37 |
| Manaus, AM | UTC−4 | 60,0° O | 11h53 |
| Fuso UTC−5 (Acre) | |||
| Rio Branco, AC | UTC−5 | 67,8° O | 11h24 |
| Cruzeiro do Sul, AC | UTC−5 | 72,7° O | 11h43 |
Repare em Recife: o sol chega ao ponto mais alto às 11h12, quase 50 minutos antes das 12h do relógio. Isso acontece porque Recife fica bem no leste do seu fuso, então o sol nasce e passa a pino cedo. Já em Brasília, mais a oeste dentro do mesmo UTC−3, o meio-dia solar cai perto das 12h04. As duas cidades usam a mesma hora, mas o sol de uma está quase uma hora à frente do sol da outra.
Uma consequência bem concreta desses fusos: no Nordeste, o sol se põe cedo o ano inteiro. Em Recife, mesmo no verão, o pôr do sol raramente passa das 17h30. A causa é dupla: a cidade fica perto do equador (onde o dia dura sempre perto de 12 horas) e, ao mesmo tempo, no extremo leste do seu fuso, com o sol adiantado quase uma hora em relação ao relógio.
Já quem mora no oeste de um fuso, como Rio Branco ou o interior de Mato Grosso, vê o sol se pôr mais tarde no relógio, porque ali ele está atrasado em relação à hora oficial. Por isso não existe um "horário do pôr do sol no Brasil": ele muda muito de estado para estado, e a explicação está tanto na latitude quanto na posição dentro do fuso. Para saber a hora exata na sua cidade, consulte a página de nascer e pôr do sol ou o calendário do sol.
Um engano comum é achar que a hora legal segue exatamente a longitude. Não segue. Os fusos oficiais têm fronteiras políticas, desenhadas pelas divisas dos estados, e não linhas retas de longitude. Um estado inteiro adota um único fuso mesmo que suas bordas leste e oeste estejam em longitudes que "pediriam" horas diferentes. Foi assim que o Brasil escolheu simplificar: cada estado (com poucas exceções internas, como o oeste do Amazonas) fica com um fuso só.
É essa diferença entre a hora legal (política) e a hora solar (astronômica) que faz o meio-dia do relógio quase nunca coincidir com o sol a pino. Some a isso a equação do tempo, um efeito da órbita da Terra que adianta ou atrasa o sol em até um quarto de hora conforme a época do ano, e você tem a explicação completa de por que seu relógio e o sol raramente concordam. Esse assunto está detalhado em como funciona o relógio de sol.
Como as fronteiras dos fusos seguem divisas de estados, dá para atravessar um fuso ao cruzar uma ponte. Quem vai de Rondônia (UTC−4) para o oeste do Pará ou para o restante do país no UTC−3 adianta o relógio em uma hora. Quem entra no Acre vindo de Rondônia atrasa mais uma hora, chegando a UTC−5. O caso mais extremo é o oeste do Amazonas: a região de Tabatinga e do alto Solimões usa UTC−5, o mesmo do Acre, enquanto Manaus, na mesma unidade da federação, está em UTC−4. É a única "quebra" de fuso dentro de um estado no país.
Já quem viaja de barco ou avião até Fernando de Noronha adianta o relógio em uma hora ao sair do continente, entrando no único trecho brasileiro em UTC−2. Por isso os voos e a programação de TV para a ilha carregam sempre a ressalva do horário próprio. São detalhes que só fazem sentido quando se lembra que o país é largo o bastante para o sol nascer em quatro horários distintos de leste a oeste.
O tamanho de cada fuso, 15 graus de longitude, não é arbitrário. Ele sai direto da conta da rotação: 360 graus divididos por 24 horas dão exatamente 15 graus por hora. O planeta foi dividido em 24 fusos teóricos de 15 graus cada, contados a partir do meridiano de Greenwich, na Inglaterra, que é o marco zero (o UTC, tempo universal coordenado). Cada país, depois, ajusta as bordas às suas fronteiras políticas, como o Brasil fez.
Esse sistema nasceu no fim do século XIX, empurrado pelas ferrovias e pelo telégrafo, e foi formalizado numa conferência internacional em 1884, em Washington, que escolheu Greenwich como referência mundial. O Brasil aderiu poucas décadas depois, com o decreto de 1913. Antes disso, cada cidade importante mantinha sua própria hora solar, e o "meio-dia" de uma capital não era o mesmo da vizinha, uma herança direta do relógio de sol.
Até 2019, o Brasil adiantava os relógios em uma hora no verão, em parte dos estados do Sul, Sudeste e Centro-Oeste, para aproveitar melhor a luz da tarde. O horário de verão foi extinto por decreto naquele ano, com o argumento de que a economia de energia já não compensava. Desde então, os quatro fusos ficam fixos o ano todo, sem trocas sazonais. A história completa dessa medida está em horário de verão no Brasil.