Como achar o norte pelo sol
A vareta fincada no chão e o relógio de ponteiros servem para achar o norte pelo sol, papel de orientação que o Cruzeiro do Sul assume à noite.
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O relógio de sol marca a hora pela sombra de uma haste e pode ser montado em versão simples com poucos materiais.
O relógio de sol marca a hora pela sombra de uma haste inclinada, o gnômon, que se move sobre um mostrador conforme o sol cruza o céu. Ele funciona bem, mas quase nunca bate com o celular, por três motivos que se somam: o fuso horário (o celular segue o meridiano do fuso, e não a longitude do lugar), a posição da cidade dentro do fuso (cada grau de longitude vale 4 minutos de sol) e a equação do tempo (a órbita da Terra adianta ou atrasa o sol em até cerca de 16 minutos ao longo do ano). Juntas, essas três correções podem afastar o relógio de sol do celular em mais de uma hora.
Brasília, DF · hoje
A peça central do relógio é o gnômon, a haste que projeta a sombra. O relógio de sol preciso deixa o gnômon inclinado, apontado para o polo celeste e paralelo ao eixo de rotação da Terra.
O sol parece girar em torno desse eixo (quem gira é a Terra, mas o efeito visto daqui é o mesmo). Por isso a sombra de um gnômon assim varre o mostrador de forma regular, avançando 15 graus por hora, todo dia do ano.
Com uma haste vertical simples, a sombra correria mais rápido em algumas horas e mais devagar em outras, e as marcas do mostrador sairiam desiguais. A haste inclinada na direção do polo resolve esse problema, e as linhas horárias ficam regulares e a leitura vale o ano inteiro.

O relógio de sol marca a hora solar verdadeira do lugar exato onde está. Quando o sol cruza o ponto mais alto, o gnômon marca meio-dia. O celular marca a hora legal, uma convenção combinada para uma faixa inteira do país. As duas quase nunca coincidem, e a diferença vem de três correções que se somam.
Somadas, as três explicam por que o meio-dia do relógio de sol pode cair às 11h30 ou às 12h30 do celular, conforme a cidade e a época.
As duas cidades da tabela estão no mesmo fuso (UTC−3), no mesmo dia, e mesmo assim o sol cruza o ponto mais alto em horas de relógio bem diferentes, só por causa da longitude. Os valores saem do motor astronômico do site, para 11 de fevereiro de 2026, data em que a equação do tempo está perto do mínimo.
| Cidade | Longitude | Meio-dia solar (relógio) |
|---|---|---|
| Recife, PE | 34,9° O | 11h34 |
| São Paulo, SP | 46,6° O | 12h21 |
O meio-dia solar de Recife e o de São Paulo ficam 47 minutos distantes, embora as duas cidades usem a mesma hora no celular. Recife fica bem a leste, com o sol adiantado; São Paulo, mais a oeste, com o sol atrasado.
O relógio de sol precisa ser construído (ou lido) levando essa distância em conta, senão a leitura se afasta do celular. O mesmo efeito faz o sol se pôr cedo no Nordeste, tema de por que o Brasil tem quatro fusos horários.
A terceira correção muda de dia para dia. A equação do tempo é a diferença entre o sol verdadeiro e um "sol médio" que marcaria horas iguais.
Ela vem de dois efeitos, a órbita elíptica da Terra, que acelera perto do sol, em janeiro, e desacelera em julho, e a inclinação do eixo, que muda o passo do sol conforme a estação. A tabela traz os valores calculados para 2026.
| Data | Equação do tempo | O que significa |
|---|---|---|
| 11 de fevereiro | −14,2 min | Sol atrasado; relógio de sol fica para trás do celular |
| 14 de maio | +3,7 min | Pequena vantagem do sol |
| 26 de julho | −6,6 min | Sol de novo um pouco atrasado |
| 3 de novembro | +16,5 min | Sol adiantado; relógio de sol fica à frente do celular |
A variação ao longo do ano, cruzada com a altura do sol, desenha no céu uma figura em forma de oito chamada analema. Uma foto do sol feita sempre à mesma hora do relógio, no mesmo lugar, durante um ano, registra esse oito.
Um relógio de sol funcional pode ser feito em casa, e o único ajuste que ele exige de cada região é o ângulo do gnômon. O material é um pedaço de papelão rígido ou madeira para a base, um triângulo para o gnômon e uma bússola (ou o método da vareta) para orientar o conjunto.
Feito com cuidado, um relógio de sol caseiro marca a hora solar com precisão de poucos minutos. A diferença que sobra em relação ao relógio de pulso mostra na prática como o sol e a hora legal se afastam.
O modelo de jardim, com o mostrador deitado no chão, é o horizontal, o mais comum. Há outros formatos, cada um com geometria própria.
O vertical fica na parede de um prédio ou de uma igreja, virado para o sol, e aparece em fachadas antigas na Europa e em algumas construções coloniais brasileiras. O equatorial tem o mostrador paralelo ao equador da Terra e um gnômon perpendicular a ele; nele as linhas horárias ficam iguais, espaçadas de 15 graus, porque o desenho acompanha a rotação do planeta sem distorção.
Existem ainda os relógios de sol portáteis, usados por navegadores e mercadores, e os relógios analemáticos, desenhados no chão de praças. Neles a própria pessoa faz o papel de gnômon, porque pisa na data do ano marcada no piso e a sombra dela aponta a hora. Todos usam a sombra de uma haste e resolvem a geometria de formas diferentes conforme a superfície escolhida.
Os egípcios já usavam obeliscos e hastes para medir o tempo pela sombra há mais de 3.500 anos, e gregos e romanos refinaram o mostrador.
A inclinação do gnômon na direção do polo veio na Idade Média, com astrônomos árabes e europeus, e permitiu que o mesmo relógio marcasse horas iguais o ano inteiro. Por séculos, o relógio de sol acertava os relógios mecânicos. O relojoeiro conferia o mecanismo pela sombra do meio-dia e descontava a equação do tempo com uma tabela.
Só no século XIX, com os fusos horários e os relógios de precisão, o relógio de sol perdeu a função de acertar a hora oficial. Ele continuou em uso como instrumento de ensino, e um mostrador no jardim mostra a uma criança que a hora do relógio veio do movimento do sol no céu.
O relógio de sol mostra que a hora do dia a dia é uma convenção, diferente da hora do sol. A sombra marcando 11h30 enquanto o celular indica meio-dia é uma demonstração de astronomia ao ar livre. O relógio de sol também não depende de bateria nem de sinal.
Os horários exatos do sol em cada cidade estão nos calendários do sol, com nascer, pôr e meio-dia solar dia a dia.