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Ciência do céu

Equação do tempo e analema: por que o sol foge do relógio

O meio-dia solar varia até 16 minutos em relação ao relógio no ano, pela órbita e a inclinação do eixo. No mesmo horário, o sol desenha um oito: o analema.

Atualizado em 05/05/2026 12 min de leitura

A equação do tempo é a diferença entre o horário que o sol marca de verdade e o horário do relógio. Ao longo do ano, o meio-dia solar (quando o sol cruza o ponto mais alto) chega a adiantar até cerca de 16 minutos (no início de novembro) e a atrasar até cerca de 14 minutos (em meados de fevereiro) em relação ao meio-dia do relógio. Isso acontece por duas causas somadas: a órbita elíptica da Terra, que muda a velocidade do planeta ao longo do ano, e a inclinação do eixo de 23,4°. Se você fotografar o sol todo dia no mesmo horário, o conjunto dos pontos desenha um oito no céu, chamado analema.

Por que o sol "desobedece" ao relógio

O nosso relógio marca um dia certinho de 24 horas, sempre igual. Mas o dia solar de verdade (o tempo entre um meio-dia solar e o seguinte) não é constante: ele fica um pouco mais curto ou mais longo conforme a época do ano, variando entre cerca de 23h59m38s e 24h00m30s. Essas pequenas diferenças se acumulam dia após dia, e o resultado é que o instante em que o sol de fato passa pelo ponto mais alto do céu vai adiantando e atrasando em relação às 12h do relógio. A conta que descreve esse descompasso é a equação do tempo.

Para medir o descompasso, os astrônomos inventaram um sol médio fictício: um sol imaginário que se move pelo céu a uma velocidade perfeitamente constante, marcando as 24 horas exatas do relógio. A equação do tempo é a distância, em minutos, entre esse sol médio e o sol de verdade. Aqui, "equação" tem o sentido antigo de "correção" ou "ajuste": é quanto você precisa somar ou subtrair do horário do sol para chegar ao horário do relógio.

As duas causas: órbita elíptica e inclinação do eixo

A equação do tempo é a soma de dois efeitos independentes, com períodos diferentes.

  • A órbita elíptica (excentricidade): a Terra não gira em torno do sol num círculo perfeito, e sim numa elipse. Ela anda mais rápido quando está mais perto do sol (o periélio, no começo de janeiro) e mais devagar quando está mais longe (o afélio, no começo de julho), pela segunda lei de Kepler. Como o sol aparente acompanha esse ritmo, o dia solar varia. Esse efeito tem período de um ano e amplitude de cerca de 7,7 minutos.
  • A inclinação do eixo (obliquidade): os 23,4° de inclinação fazem o sol se mover pela eclíptica, que é inclinada em relação ao equador celeste. O que conta para o relógio é só a parte do movimento paralela ao equador. Perto dos solstícios essa projeção é mais rápida; perto dos equinócios, mais lenta. Esse efeito tem período de meio ano e amplitude de cerca de 9,9 minutos.

Somando os dois, com seus períodos diferentes, surge a curva irregular da equação do tempo, com quatro momentos de acerto (quando o sol e o relógio coincidem) e dois picos grandes. A inclinação do eixo entra aqui de um jeito diferente do que faz com a duração do dia: lá ela alonga e encurta o dia; aqui ela adianta e atrasa o meio-dia. São dois efeitos distintos da mesma obliquidade.

Analema real: as posições do sol fotografadas no mesmo horário ao longo do ano formam um oito no céu azul sobre uma paisagem
O analema. O laço de cima (estreito) são os meses de sol alto; o de baixo (largo) os de sol baixo, onde caem os dois maiores desvios: adianta ~16 min em novembro e atrasa ~14 min em fevereiro. Imagem: Giuseppe Donatiello, CC0 (via Wikimedia Commons).

A equação do tempo ao longo do ano

A tabela reúne os momentos-chave da curva, com os valores calculados pelo motor astronômico do site para 2026: quando o sol adianta o máximo, quando atrasa o máximo e quando ele coincide com o relógio. Os valores mudam poucos segundos de um ano para outro.

Equação do tempo em datas-chave de 2026, calculada pelo motor do site. Valor positivo = sol adianta (cruza o meridiano antes das 12h solar médias); negativo = sol atrasa.
DataEquação do tempoO que acontece
11 de fevereiro-14,2 minMaior atraso do ano. O sol cruza o alto do céu cerca de 14 min depois do meio-dia médio.
15 de abril0 minSol e relógio coincidem.
14 de maio+3,7 minPequeno adianto do outono no Sul.
13 de junho0 minSol e relógio coincidem.
26 de julho-6,6 minAtraso moderado de inverno.
1 de setembro0 minSol e relógio coincidem.
3 de novembro+16,5 minMaior adianto do ano. O sol cruza o alto do céu cerca de 16 min antes do meio-dia médio.
25 de dezembro0 minSol e relógio coincidem.

Repare que os dois maiores desvios, novembro e fevereiro, ficam perto do solstício de dezembro, e não por acaso: é ali que as duas causas se somam no mesmo sentido, em vez de se cancelarem. Nos meses de abril, junho, setembro e dezembro, os dois efeitos se anulam e o sol bate com o relógio.

O caso que se vê a olho nu: o pôr do sol mais cedo não é no solstício

A consequência mais surpreendente da equação do tempo aparece no calendário de qualquer cidade do Sul. Muita gente supõe que o dia com o pôr do sol mais cedo do ano seja o solstício de inverno, o dia mais curto. Não é. Em Porto Alegre, com dados do motor do site para 2026:

Datas notáveis do inverno em Porto Alegre (RS), 2026. Calculado pelo motor do site.
EventoDataHorário
Pôr do sol mais cedo do ano9 de junho17:32
Solstício de inverno (dia mais curto)21 de junho
Nascer do sol mais tarde do ano1 de julho07:22

O pôr do sol mais cedo cai doze dias antes do solstício, e o nascer mais tarde, dez dias depois. O dia mais curto continua sendo o solstício, porque é ali que a soma de manhã e tarde é mínima; mas o pôr e o nascer, separadamente, andam para os lados por causa da equação do tempo, que empurra o meio-dia solar para mais tarde ao longo de junho. Quem esperar o solstício para ver o pôr do sol mais cedo já terá perdido a data.

O que mais isso muda na prática

A equação do tempo explica outros fatos que parecem estranhos à primeira vista:

  • O relógio de sol "erra". Um relógio de sol marca o tempo solar de verdade, então ele adianta ou atrasa em relação ao seu celular conforme a época. A diferença é exatamente a equação do tempo, mais o ajuste do fuso e da longitude local. Como funciona esse instrumento está em relógio de sol, como funciona.
  • Nascer e pôr do sol não são simétricos em torno das 12h. Eles não caem em horários igualmente distantes do meio-dia do relógio, porque o meio-dia solar em si quase nunca está às 12h. Some a isso a longitude: dentro de um mesmo fuso, cidades mais a oeste têm o meio-dia solar mais tarde.
  • O meio-dia solar raramente é ao meio-dia. No Brasil, entre a equação do tempo, a longitude e a largura dos fusos, o sol pode cruzar o ponto mais alto perto de 12h30 ou até depois. Esse ponto mais alto é o meio-dia solar, diferente do meio-dia do relógio.

Tudo isso já entra pronto nos horários que o site calcula. Veja o nascer e o pôr do sol reais, dia a dia, na página de nascer e pôr do sol da sua cidade (por exemplo Porto Alegre ou Recife), ou acompanhe a curva do mês no calendário de nascer e pôr do sol.

Como fotografar o analema

Registrar o oito no céu é um projeto de paciência de um ano. Você monta a câmera num tripé fixo, sempre no mesmo lugar e apontando para a mesma direção, e fotografa o sol no mesmo horário do relógio, uma vez por semana, do começo ao fim do ano. No final, sobrepondo as imagens, os pontos do sol formam o analema. É preciso escolher um horário longe do meio-dia (para o oito não ficar atrás de você) e um bom horizonte ou marco de referência para alinhar cada foto.

O resultado une as duas causas deste artigo numa só imagem: a inclinação do eixo estica o oito na vertical (o sol alto de junho no topo, o baixo de dezembro embaixo) e a órbita elíptica deixa um laço bem maior que o outro. No Hemisfério Sul o oito aparece de cabeça para baixo em relação às fotos famosas do Norte, com o laço grande no alto. Vale casar o projeto com o roteiro de apps para planejar a foto do sol, que ajudam a prever a posição exata a cada semana.

Perguntas frequentes

O que é a equação do tempo?
É a diferença entre o horário que o sol marca de verdade (tempo solar) e o horário de um sol médio fictício que marca as 24 horas exatas do relógio. Ao longo do ano, o meio-dia solar adianta até cerca de 16 minutos, no início de novembro, e atrasa até cerca de 14 minutos, em meados de fevereiro.
Por que o sol adianta e atrasa em relação ao relógio?
Por duas causas somadas. A órbita elíptica da Terra faz o planeta andar mais rápido perto do sol (janeiro) e mais devagar longe dele (julho), com amplitude de cerca de 7,7 minutos. E a inclinação do eixo de 23,4 graus muda a velocidade aparente do sol ao longo da eclíptica, com amplitude de cerca de 9,9 minutos. Juntas, elas geram a curva da equação do tempo.
O que é o analema?
É a figura em forma de oito que o sol desenha quando é fotografado no mesmo horário do relógio, no mesmo lugar, ao longo de um ano. O eixo vertical do oito vem da inclinação do eixo (a altura do sol muda com a estação) e a assimetria dos laços vem da órbita elíptica.
Por que o pôr do sol mais cedo do ano não cai no solstício?
Por causa da equação do tempo. Em Porto Alegre, em 2026, o pôr do sol mais cedo cai em 9 de junho, doze dias antes do solstício, e o nascer mais tarde em 1 de julho. O dia mais curto continua sendo o solstício, mas o pôr e o nascer, separados, andam para os lados.
Por que um relógio de sol não bate com o celular?
Porque o relógio de sol marca o tempo solar de verdade, que adianta ou atrasa conforme a época segundo a equação do tempo. Somando ainda o ajuste do fuso horário e da longitude local, a diferença em relação ao celular pode chegar a mais de um quarto de hora.
O meio-dia solar é sempre às 12h?
Quase nunca. Entre a equação do tempo, a longitude da cidade e a largura dos fusos horários, o sol pode cruzar o ponto mais alto do céu bem depois das 12h, às vezes perto de 12h30 ou mais tarde, dependendo do lugar e da data.