Equação do tempo e analema: por que o sol foge do relógio
O meio-dia solar varia até 16 minutos em relação ao relógio no ano, pela órbita e a inclinação do eixo. No mesmo horário, o sol desenha um oito: o analema.
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Os dias mudam pela inclinação de 23,4 graus do eixo da Terra. Cresce com a latitude: quase nada no equador, mais de 4 horas no sul. Veja a tabela por cidade.
Os dias mudam de duração porque o eixo da Terra é inclinado cerca de 23,4° em relação ao plano da sua órbita. Ao longo do ano, cada hemisfério fica ora apontado para o sol (verão, dias longos), ora afastado dele (inverno, dias curtos). O tamanho dessa variação depende da latitude: perto da linha do equador o dia dura quase sempre 12 horas, e quanto mais longe do equador, maior a diferença entre o dia mais longo e o mais curto do ano. Em Macapá (AP) a variação é de poucos minutos; no extremo sul do Brasil, em Chuí (RS), passa de quatro horas e meia.
A Terra gira em torno de um eixo que não é perpendicular à sua órbita: ele está inclinado cerca de 23,4° (mais precisamente 23,44°, a chamada obliquidade da eclíptica). Essa inclinação se mantém apontando para a mesma direção no espaço, perto da estrela Polar, enquanto o planeta dá a volta no sol. O resultado é que, em metade do ano, o Hemisfério Sul fica inclinado na direção do sol, e na outra metade, afastado dele.
Quando o seu hemisfério aponta para o sol, o sol descreve no céu um arco mais alto e mais longo: nasce mais cedo, sobe bem alto ao meio-dia e se põe mais tarde. É o verão, com dias longos. Seis meses depois, o hemisfério aponta para longe do sol, o arco fica baixo e curto, e os dias encurtam. É o inverno. Se a Terra não tivesse essa inclinação, todos os lugares teriam 12 horas de dia e 12 de noite o ano inteiro, e não existiriam estações. O jeito como esse arco muda de posição ao longo do ano está detalhado em como o sol se move no céu.

Os astrônomos resumem esse vaivém em uma medida chamada declinação solar: é a "latitude" sobre a qual o sol está a pino em cada dia. Ela varia suavemente ao longo do ano entre -23,4° (solstício de dezembro, sol a pino no Trópico de Capricórnio, verão no Sul) e +23,4° (solstício de junho, sol a pino no Trópico de Câncer). Nos dois equinócios, ela passa por 0°, o sol fica a pino sobre a linha do equador e o dia dura quase 12 horas em toda a Terra.
Quanto mais a declinação se afasta de zero e mais alta é a sua latitude, maior fica a diferença de duração entre dia e noite. É por isso que a variação anual do dia é quase nada perto do equador e enorme perto dos polos, até o caso extremo do sol da meia-noite, que só acontece dentro dos círculos polares. A declinação também governa a altura que o sol atinge ao meio-dia, tema de o que é o zênite e o meio-dia solar.
A tabela abaixo mostra, para cidades de norte a sul do Brasil, quanto dura o dia mais longo e o dia mais curto do ano, e a diferença entre os dois. Todos os valores foram calculados pelo motor astronômico do site. A variação cresce de forma clara com a latitude.
| Cidade | Latitude | Maior dia | Menor dia | Variação |
|---|---|---|---|---|
| Macapá, AP | 0,0° | 12h07 | 12h07 | ~1 min |
| Boa Vista, RR | 2,8° N | 12h17 | 11h58 | ~19 min |
| Recife, PE | 8,0° S | 12h36 | 11h39 | ~57 min |
| Brasília, DF | 15,8° S | 13h04 | 11h11 | ~1h53 |
| São Paulo, SP | 23,5° S | 13h35 | 10h41 | ~2h54 |
| Curitiba, PR | 25,4° S | 13h44 | 10h33 | ~3h11 |
| Porto Alegre, RS | 30,0° S | 14h05 | 10h13 | ~3h52 |
| Chuí, RS (extremo sul) | 33,7° S | 14h24 | 9h55 | ~4h29 |
No Norte, perto do equador, o dia é quase constante o ano inteiro, e por isso lá quase não se sente a diferença entre as estações no relógio. No Sul, a diferença entre o verão e o inverno passa de duas, três, quatro horas. Para ver essa curva dia a dia na sua cidade, use os calendários do sol ou o calendário de nascer e pôr do sol.
A inclinação não muda só quantas horas o sol fica no céu; muda também o quanto ele sobe. A altura do sol ao meio-dia solar (o ponto mais alto do dia) varia com a estação, e o efeito é mais dramático nas cidades de latitude média. A tabela traz a altura máxima do sol nos dois solstícios, calculada pelo motor do site.
| Cidade | Latitude | Solstício de dez. | Solstício de jun. |
|---|---|---|---|
| Macapá, AP | 0,0° | 66,5° | 66,6° |
| Recife, PE | 8,0° S | 74,6° | 58,5° |
| São Paulo, SP | 23,5° S | 89,9° | 43,0° |
| Porto Alegre, RS | 30,0° S | 83,4° | 36,5° |
| Chuí, RS | 33,7° S | 79,7° | 32,9° |
Repare em São Paulo: em dezembro o sol chega a 89,9°, praticamente no zênite, quase a pino sobre a cabeça, porque a cidade fica quase em cima do Trópico de Capricórnio. Em junho, o mesmo sol paulistano mal passa dos 43°. É essa diferença de altura, mais do que a duração em si, que faz o sol de inverno esquentar menos: a mesma luz se espalha por uma área maior do chão quando incide de esguelha.
Repare na primeira tabela que as cidades do Hemisfério Sul (São Paulo, Porto Alegre) têm o maior dia em dezembro, enquanto Boa Vista, no Hemisfério Norte, tem o maior dia em junho. Isso não é acaso: é a mesma inclinação vista dos dois lados. Quando o Polo Sul aponta para o sol (dezembro), é verão no Sul; seis meses depois, o Polo Norte é que aponta, e o verão se muda para o Hemisfério Norte. O Brasil, que fica quase todo no Sul mas cruza a linha do equador no extremo norte, tem cidades nos dois regimes.
A distância entre a Terra e o sol quase não influi nisso. A Terra está, ao contrário do que a intuição sugere, um pouco mais perto do sol em janeiro (no verão do Sul) do que em julho. Se a distância mandasse, o verão seria igual nos dois hemisférios ao mesmo tempo, o que não acontece. Quem comanda as estações e a duração do dia é a inclinação do eixo, não a distância.
Seria de esperar que, no equinócio, todo lugar da Terra tivesse exatamente 12 horas de dia e 12 de noite. Não é bem assim. Repare que, na tabela, até Macapá, bem sobre a linha do equador, tem o dia mais curto do ano com 12h07, não 12h00. O dia dura sempre um punhado de minutos a mais do que a noite, o ano inteiro, por duas razões.
Somados, esses dois efeitos alongam o dia em cerca de 6 a 8 minutos no equador. O momento em que dia e noite têm exatamente a mesma duração (o equilux) cai alguns dias antes do equinócio de outono e alguns dias depois do de primavera, não no equinócio em si. É um bom exemplo de como a definição prática de nascer e pôr do sol muda o número final, tema também tratado em equinócio e solstício no Brasil.
Os 23,44° de hoje não são um número fixo para sempre. A obliquidade da Terra oscila lentamente entre cerca de 22,1° e 24,5°, num ciclo de aproximadamente 41 mil anos, puxada pela atração dos outros planetas. No momento, a inclinação está diminuindo cerca de meio segundo de arco por ano. Quando ela é maior, os verões e invernos ficam mais extremos; quando é menor, mais amenos. Essas variações lentas, junto com mudanças na forma da órbita e na direção do eixo, compõem os chamados ciclos de Milankovitch, que ajudam a explicar a chegada e a saída das eras glaciais ao longo de centenas de milhares de anos. Na escala de uma vida, porém, a inclinação é praticamente constante, e a tabela acima vale para qualquer ano da sua geração.
Cada cidade tem a sua própria curva de duração do dia, com nascer e pôr do sol para qualquer data. Confira a sua na página de nascer e pôr do sol, escolhendo o município, ou vá direto pelos exemplos: São Paulo, Porto Alegre e Macapá.