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São Paulo, SP
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Ciência do céu

Cidades onde o sol não se põe por 6 meses: onde é e quanto dura de verdade

Seis meses só no Polo Norte. Nas cidades, o sol da meia-noite dura de dias a quatro meses: Longyearbyen, Tromsø, Murmansk. Veja a lista e por quê.

Atualizado em 13/02/2026 10 min de leitura

O sol fica seis meses inteiros sem se pôr em um único lugar do planeta: exatamente no Polo Norte (e, do outro lado, no Polo Sul). Nas cidades de verdade, com gente morando, o sol da meia-noite dura de alguns dias a cerca de quatro meses, conforme a latitude. Em Longyearbyen, no arquipélago de Svalbard, o sol não se põe de 20 de abril a 23 de agosto. Em Tromsø, na Noruega, o período vai de meados de maio ao fim de julho. Em Murmansk, a maior cidade dentro do Círculo Polar Ártico, são cerca de dois meses. Todos esses lugares ficam acima dos 66,6° de latitude, dentro dos círculos polares, e nenhum deles é no Brasil.

Onde o sol pode ficar 24 horas sem se pôr

Existe uma linha no mapa a partir da qual o sol da meia-noite passa a ser possível: o círculo polar, a cerca de 66,6° de latitude, tanto ao norte quanto ao sul. O número não é arbitrário. O eixo da Terra é inclinado cerca de 23,4°, e é essa inclinação que, no verão de cada hemisfério, aponta o polo para o lado do sol. Subtraia 23,4° de 90° e você chega aos 66,6°: abaixo dessa latitude o sol sempre encontra o horizonte em algum momento do giro do planeta; acima dela, em pelo menos um dia do ano, ele não encontra.

Bem em cima do círculo polar, o fenômeno acontece só no dia do solstício, e de raspão. Alguns quilômetros mais ao norte, já são semanas. Quanto mais perto do polo, mais tempo dura, até chegar aos seis meses contínuos no ponto exato do Polo Norte. A geometria completa dessa conta, e a razão de ela nunca alcançar o território brasileiro, está detalhada em o que é o sol da meia-noite.

De onde vem a lenda dos seis meses

A frase "seis meses de dia e seis meses de noite" é verdadeira, mas quase ninguém que a repete mora onde ela vale. Os seis meses cheios só ocorrem no Polo Norte geográfico e no Polo Sul geográfico, dois pontos onde não existe cidade nenhuma, só gelo, oceano coberto e estações de pesquisa. No Polo Norte o sol nasce por volta do equinócio de março e só se põe no equinócio de setembro. Meio ano de luz ininterrupta, meio ano de sombra.

Desça em direção às cidades habitadas e o número encolhe rápido. Ninguém em Longyearbyen, a comunidade civil mais ao norte do mundo, vive quatro meses e não seis de sol contínuo. Quem procura "cidade onde o sol não se põe por seis meses" está, sem saber, procurando o polo. As cidades entregam uma versão mais curta, porém igualmente estranha para quem cresceu vendo o sol subir e descer todo dia.

Sol da meia-noite baixo no horizonte sobre Longyearbyen, em Svalbard, iluminando montanhas e o fiorde em plena madrugada.
Sol da meia-noite sobre Longyearbyen, em Svalbard, a 78° N. Perto da meia-noite o sol fica baixo, no rumo do norte, mas não chega a tocar o horizonte. Imagem: Kawon Kez Sel, CC0 (via Wikimedia Commons).

As cidades do sol da meia-noite

A tabela reúne lugares habitados que têm sol da meia-noite, do mais ao sul (onde dura pouco) ao mais ao norte (onde dura meses). As datas variam um ou dois dias de ano para ano e conforme quem mede considera a borda superior ou o centro do disco solar, mas a ordem de grandeza é firme. Repare que o número de dias sobe junto com a latitude.

Duração do sol da meia-noite em cidades e povoados ao norte do Círculo Polar Ártico. Datas conforme fontes oficiais e efemérides locais (timeanddate, Visit Norway, serviços meteorológicos).
LocalLatitudePeríodo sem pôr do solDias, aprox.
Rovaniemi, Finlândia66,5° Nem torno do solstício de junhopoucos dias
Murmansk, Rússia69,0° N~22 mai a 22 jul~60
Tromsø, Noruega69,6° N~20 mai a 22 jul~63
Utqiagvik (Barrow), Alasca71,3° N~11 mai a 1º ago~82
Longyearbyen, Svalbard78,2° N20 abr a 23 ago~125
Polo Norte geográfico, 90° N: sol acima do horizonte do equinócio de março ao de setembro, ~186 dias

Murmansk merece destaque. Com cerca de 270 mil habitantes, é a maior cidade do mundo dentro do Círculo Polar Ártico, e não um posto avançado de pesquisa: tem porto, ferrovia, prédios e trânsito, tudo funcionando sob dois meses de sol que não se põe. Tromsø, a "capital do Ártico" norueguês, é o destino clássico de quem quer ver o fenômeno com estrutura de cidade grande. Já Utqiagvik, no extremo norte do Alasca, chamada Barrow até 2016, junta quase três meses de sol contínuo no verão a mais de dois meses de escuridão no inverno.

O sol não fica parado: ele roda o horizonte

O engano mais comum é imaginar o sol da meia-noite como um sol cravado no céu, imóvel. Não é isso. O sol se move o tempo todo, cerca de 15° por hora, como em qualquer lugar da Terra. A diferença é o desenho do movimento. Em vez de subir a leste e cair a oeste, o sol descreve um círculo quase completo em torno do observador, sempre acima da linha do horizonte. À meia-noite ele está baixo, no rumo do norte; ao meio-dia, mais alto, no rumo do sul. Nunca encosta no horizonte, e por isso nunca se põe.

Essa luz rasante de madrugada é dourada e horizontal, parecida com a nossa golden hour, só que sem hora para acabar. Fotógrafos de paisagem viajam meses antes para pegar Svalbard ou o Cabo Norte sob esse sol baixo permanente, quando o mesmo cenário rende luz quente por horas seguidas em vez dos poucos minutos a que estamos acostumados aqui.

Quão alto o sol chega, e por que a luz nunca esfria de cor

A altura do sol da meia-noite depende da latitude, e dá para calcular. Em Tromsø, a 69,6° N, no auge do verão o sol chega a cerca de 44° acima do horizonte ao meio-dia e cai para só uns 3° à meia-noite, quase raspando a linha do horizonte no rumo do norte. Em Longyearbyen, a 78,2° N, o sol nunca sobe muito: fica entre uns 12° à meia-noite e 35° ao meio-dia. Por passar o dia inteiro baixo, a luz cruza sempre uma camada espessa de atmosfera, e é por isso que ela permanece quente e dourada por horas, sem o branco duro do sol a pino que conhecemos aqui.

Esse é o motivo de o fenômeno ter virado ímã de turismo de paisagem. Nos países nórdicos, o solstício de junho é a maior festa popular do ano, o midsummer, celebrado com fogueiras e reuniões que varam a madrugada clara. Cabo Norte, na ponta da Noruega, e a cidade sueca de Kiruna recebem visitantes que sobem só para ver o sol tocar o ponto mais baixo do céu à meia-noite e voltar a subir sem se pôr.

Por que quase não há cidades assim no Hemisfério Sul

O sol da meia-noite acontece nos dois hemisférios, mas as cidades ficam quase todas no norte. O motivo é geográfico. Ao redor do Círculo Polar Ártico há terra firme habitada há séculos: Noruega, Suécia, Finlândia, Rússia, Alasca, norte do Canadá e Groenlândia. Ao redor do Círculo Polar Antártico há o continente antártico, sem população permanente, cercado de oceano. As bases de pesquisa vivem o sol da meia-noite, mas não são cidades.

A cidade mais austral do mundo, Ushuaia, na Argentina, a cerca de 54,8° S, nem chega ao círculo polar: falta mais de 11° de latitude. Ela tem verões de dias longuíssimos, de mais de 17 horas de luz, mas o sol sempre acaba se pondo por um tempo, ainda que já perto da meia-noite. Para o efeito de 24 horas de sol, é preciso cruzar a linha dos 66,6° S, onde só existem estações científicas.

Como as pessoas vivem sob luz o tempo todo

Sem escuro para marcar a passagem das horas, o corpo perde a referência que usa para regular sono e vigília. É comum quem mora ou visita essas cidades dormir com cortina blackout ou máscara nos olhos, porque a claridade constante engana o relógio biológico. Muitos moradores relatam noites mais curtas de sono no auge do verão, compensadas depois. É o outro lado da moeda do inverno, quando a falta de luz derruba o ânimo.

Na cultura local, o sol da meia-noite virou motivo de festa e de turismo. Há corridas, festivais de música e partidas de golfe realizadas de madrugada, com o sol a pino no rumo do norte. Cruzeiros sobem a costa da Noruega no verão só para mostrar aos passageiros a meia-noite iluminada. O fenômeno que atrapalha o sono também move uma economia inteira de visitantes.

No Brasil o sol sempre se põe

Nenhuma cidade brasileira chega nem perto do sol da meia-noite. O ponto mais ao sul do país, no arroio Chuí, no Rio Grande do Sul, fica a cerca de 33,7° S, a uns 33° de latitude do Círculo Polar Antártico. Falta metade do caminho. Por aqui o sol nasce e se põe todo santo dia; o que muda entre o verão e o inverno é apenas quantas horas ele passa no céu.

Essa variação, mesmo sem chegar ao extremo polar, é real e mensurável. No dia mais longo do ano, calculado pelo motor astronômico do site, o Chuí tem cerca de 14h24 de sol, e Porto Alegre, 14h05. Já Macapá, em cima da linha do equador, fica perto de 12 horas o ano inteiro. Para ver o horário exato de nascer e pôr do sol na sua cidade, hoje e em qualquer data, use a página de nascer e pôr do sol. E se a curiosidade é sobre a luz que sobra depois que o sol se põe, o crepúsculo mostra quanto tempo o céu ainda fica claro por aqui.

Três equívocos que valem desfazer

O primeiro já apareceu: seis meses de sol só no polo, não nas cidades. O segundo é achar que meia-noite significa escuridão por natureza. Meia-noite é um número no relógio, ligado ao fuso horário, e não à posição do sol; em Tromsø no verão, à meia-noite, é dia claro. O terceiro é confundir o sol da meia-noite com as "noites brancas". Cidades logo abaixo do círculo polar, como Reykjavík ou São Petersburgo, não têm sol da meia-noite de verdade, mas o sol mergulha tão pouco abaixo do horizonte no verão que o céu nunca escurece de todo. É um crepúsculo que dura a noite inteira, primo mais fraco do fenômeno polar.

Perguntas frequentes

Existe alguma cidade onde o sol fica 6 meses sem se pôr?
Não. Os seis meses de sol contínuo só acontecem no ponto exato do Polo Norte (e no Polo Sul), onde não há cidade, apenas gelo e estações de pesquisa. Na comunidade civil mais ao norte do mundo, Longyearbyen, em Svalbard, o sol não se põe por cerca de quatro meses, de 20 de abril a 23 de agosto. Quem procura "seis meses" está, na prática, procurando o polo.
Quais cidades têm sol da meia-noite?
As que ficam acima de 66,6 graus de latitude, dentro do Círculo Polar Ártico. Entre as habitadas estão Tromsø, Alta e Hammerfest na Noruega, Murmansk na Rússia, Utqiagvik no Alasca, Longyearbyen em Svalbard, além de cidades no norte da Suécia e da Finlândia. Murmansk, com cerca de 270 mil habitantes, é a maior delas.
Por que o sol da meia-noite não acontece no Brasil?
Porque o país inteiro fica longe do círculo polar. O ponto mais ao sul do Brasil, no arroio Chuí (RS), está a cerca de 33,7 graus de latitude sul, a uns 33 graus do Círculo Polar Antártico. Falta metade do caminho. Por aqui o sol nasce e se põe todos os dias; muda só quantas horas ele passa no céu.
O sol fica parado no céu durante o sol da meia-noite?
Não. O sol se move o tempo todo, cerca de 15 graus por hora, como em qualquer lugar. A diferença é que ele descreve um círculo em torno do observador sem cruzar o horizonte: fica baixo à meia-noite, no rumo do norte, e mais alto ao meio-dia, no rumo do sul. Como nunca toca a linha do horizonte, nunca se põe.
Por que quase não há cidades com sol da meia-noite no Hemisfério Sul?
Porque ao redor do Círculo Polar Antártico há o continente antártico, sem população permanente, cercado de oceano. As bases de pesquisa vivem o fenômeno, mas não são cidades. No norte, ao contrário, há terra habitada há séculos na Noruega, Rússia, Alasca, Canadá e Groenlândia.
Quanto dura o sol da meia-noite em Tromsø?
Em Tromsø, na Noruega, o sol não se põe de cerca de 20 de maio a 22 de julho, aproximadamente dois meses. É um dos destinos mais fáceis para ver o fenômeno, por ser uma cidade grande com boa estrutura, a chamada capital do Ártico norueguês.
O que são as noites brancas e é a mesma coisa?
Não é a mesma coisa. Cidades logo abaixo do círculo polar, como Reykjavík e São Petersburgo, não têm sol da meia-noite de verdade, mas no verão o sol mergulha tão pouco abaixo do horizonte que o céu nunca escurece por completo. É um crepúsculo que dura a noite inteira, uma versão mais fraca do fenômeno polar.