Cor do pôr do sol: por que o pôr do sol é vermelho?
A cor do pôr do sol fica mais intensa em dias com poeira ou fumaça no ar, e a explicação física do fenômeno surgiu no século XIX.
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O ditado que liga céu vermelho de manhã a mau tempo nasceu entre marinheiros e pode ser conferido com a meteorologia das regiões do Brasil.
O ditado tem base parcial, e ela depende da região. A frase "céu vermelho de manhã, marinheiro se avisa; céu vermelho à noite, marinheiro tem sorte" funciona na faixa das latitudes médias, entre cerca de 30 e 60 graus, onde os sistemas de tempo caminham de oeste para leste. Um céu avermelhado ao amanhecer indica que o ar limpo e seco de uma alta pressão já passou para o leste, e que uma frente com nuvens e chuva se aproxima pelo oeste. À noite, o vermelho aparece quando o sol poente ilumina o céu claro a oeste, sinal de bom tempo chegando. No Brasil, o ditado vale bem no Sul, onde as frentes frias vêm mesmo de sudoeste, e vale pouco no Norte e Nordeste, dominados pelos ventos alísios e pela chuva de convecção da tarde.
A versão brasileira mais ouvida entre pescadores é "céu vermelho de manhã, marinheiro se avisa". Em inglês a rima famosa é red sky at morning, sailors take warning; red sky at night, sailors' delight. A ideia é antiga e aparece no Evangelho de Mateus (16, 2 a 3), quando se fala em prever o tempo pela cor do céu, e reaparece em Shakespeare, no poema Vênus e Adônis, de 1593, com a imagem da "manhã vermelha" que anuncia naufrágio ao marinheiro e tempestade ao campo. Marinheiros e agricultores acumularam esse tipo de observação por séculos, muito antes de existir boletim meteorológico.
O ditado acerta mais do que erra na faixa de latitude em que nasceu, para quem sabe o que está observando. O céu vermelho não causa o tempo. A cor acompanha a chegada ou a saída de um sistema e pode enganar.

A cor vem da mesma óptica que pinta o pôr do sol de vermelho. Com o sol junto do horizonte, a luz atravessa uma coluna de ar muito mais longa que ao meio-dia. Nesse trajeto, a dispersão de Rayleigh já espalhou quase todo o azul e o verde para os lados, e sobra a luz vermelha e alaranjada. Essa luz baixa segue quase reta e ilumina, por baixo, as nuvens que estiverem no caminho. Por isso o vermelho aparece nas nuvens, que servem de anteparo e devolvem a luz vermelha ao observador; o céu limpo fica sem essa cor.
O ditado deixa de fora uma condição. Para a luz vermelha do nascente chegar até as nuvens do outro lado, o céu do lado do sol precisa estar razoavelmente limpo, sem uma parede de nuvem baixa cortando o raio. O fenômeno depende de sol de um lado, com ar transparente, e de nuvens do outro lado servindo de anteparo. Quando os dois lados estão fechados, não há vermelho nenhum, só um cinza uniforme.
O ditado se apoia na direção em que os sistemas de tempo caminham. Nas latitudes médias dos dois hemisférios, entre cerca de 30 e 60 graus, sopra o cinturão dos ventos de oeste. As áreas de alta e de baixa pressão, e as frentes que as acompanham, viajam de oeste para leste. O tempo do dia seguinte costuma estar, no momento da observação, a oeste do observador.
De manhã o sol nasce a leste. A luz dele atravessa o ar limpo e seco do lado leste, o ar de uma alta pressão que já foi embora, e ilumina por baixo as nuvens altas que chegam pelo oeste. Por isso o observador vê o céu vermelho sobre o oeste, do lado oposto ao sol. Essas nuvens costumam ser a dianteira de uma frente. O bom tempo já passou e o mau tempo se aproxima, e daí vem o aviso.
De tarde o observador olha para o oeste, onde o sol se põe. Um céu vermelho ali significa que a luz do poente está atravessando um ar limpo a oeste, de onde vem o tempo de amanhã. Ar limpo a oeste é sinal de alta pressão a caminho, e alta pressão costuma trazer céu estável e seco. Por isso o ditado associa o vermelho da tarde a um dia seguinte de tempo bom.
A regra depende dos ventos de oeste, que predominam nas latitudes médias. O Brasil vai da linha do equador, no extremo norte, até cerca de 33 graus sul, no Chuí. Boa parte do país está nos trópicos, fora do cinturão de oeste, e apenas o Sul entra de fato na faixa onde o ditado nasceu.
No Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e o sul de São Paulo), as frentes frias sobem mesmo do quadrante sudoeste, empurradas pelos ventos de oeste das latitudes médias. Ali o ditado se sai bem, e um amanhecer muito vermelho antes de uma frente que se anuncia costuma valer como aviso. No Norte e no Nordeste, o regime é outro. Dominam os ventos alísios, que sopram de leste, e a chuva vem mais da convecção da tarde, aquelas pancadas que se formam no calor local, do que de frentes organizadas vindas de oeste. Nesses lugares um céu vermelho de manhã diz pouco sobre a chuva da tarde.
| Região | Regime dominante | De onde vem a chuva | O ditado ajuda? |
|---|---|---|---|
| Sul | Latitudes médias, ventos de oeste | Frentes frias, de sudoeste | Sim, com cautela |
| Sudeste | Transição | Frentes e convecção | Às vezes |
| Centro-Oeste | Tropical, estação seca e chuvosa | Convecção e frentes esporádicas | Às vezes |
| Nordeste | Alísios de leste | Convecção, ondas de leste | Pouco |
| Norte | Equatorial, alísios | Convecção da tarde | Pouco |
A intensidade do vermelho também informa sobre o estado do ar. Ar seco e cheio de poeira, típico de uma alta pressão parada, deixa passar os alaranjados e vermelhos e segura o resto, o que produz céus de tons mais fortes. Ar úmido, com gotículas maiores, tende a espalhar a luz de forma menos seletiva e a atenuar a cor, deixando tons mais pálidos ou acinzentados.
Por isso um pôr do sol de vermelho profundo, com ar seco e estável a oeste, é um bom presságio nas latitudes médias, porque aquele ar seco vem na direção do observador. Já um amanhecer vermelho carregado, com nuvens médias e altas se adensando a oeste, costuma preceder a chegada de umidade e da frente. A cor funciona como medida grosseira da limpeza e da secura do ar por onde a luz passou.
A previsão moderna, feita com satélite, radar e modelos numéricos, vai além de qualquer regra de céu. O ditado tem estes limites:
Fumaça de queimada complica ainda mais a leitura. Entre agosto e outubro, a fumaça de incêndios na Amazônia e no Pantanal deixa o céu de muitas cidades vermelho ao amanhecer e ao entardecer sem que isso tenha qualquer relação com frente ou chuva.
Para quem navega, pesca ou acampa no Sul do Brasil, o ditado ainda serve como alerta barato, combinado com outros sinais. Um amanhecer muito vermelho, com nuvens altas do tipo cirros se espalhando a oeste e o vento rondando para o quadrante norte, é um conjunto que pede atenção nas próximas horas. Já um pôr do sol limpo e alaranjado a oeste, com o ar seco, reforça a aposta de um dia seguinte tranquilo.
Além da cor, o horário do nascer, do pôr e da luz de transição de cada cidade fica no cálculo diário do sol, com Porto Alegre como exemplo, e a evolução da luz baixa aparece na página de crepúsculo.