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Ciência do céu

Céu vermelho de manhã, marinheiro se avisa: vale como previsão do tempo?

O ditado que liga céu vermelho de manhã a mau tempo nasceu entre marinheiros e pode ser conferido com a meteorologia das regiões do Brasil.

Por Equipe RCG Websites 10 min de leitura

O ditado tem base parcial, e ela depende da região. A frase "céu vermelho de manhã, marinheiro se avisa; céu vermelho à noite, marinheiro tem sorte" funciona na faixa das latitudes médias, entre cerca de 30 e 60 graus, onde os sistemas de tempo caminham de oeste para leste. Um céu avermelhado ao amanhecer indica que o ar limpo e seco de uma alta pressão já passou para o leste, e que uma frente com nuvens e chuva se aproxima pelo oeste. À noite, o vermelho aparece quando o sol poente ilumina o céu claro a oeste, sinal de bom tempo chegando. No Brasil, o ditado vale bem no Sul, onde as frentes frias vêm mesmo de sudoeste, e vale pouco no Norte e Nordeste, dominados pelos ventos alísios e pela chuva de convecção da tarde.

Origem do ditado

A versão brasileira mais ouvida entre pescadores é "céu vermelho de manhã, marinheiro se avisa". Em inglês a rima famosa é red sky at morning, sailors take warning; red sky at night, sailors' delight. A ideia é antiga e aparece no Evangelho de Mateus (16, 2 a 3), quando se fala em prever o tempo pela cor do céu, e reaparece em Shakespeare, no poema Vênus e Adônis, de 1593, com a imagem da "manhã vermelha" que anuncia naufrágio ao marinheiro e tempestade ao campo. Marinheiros e agricultores acumularam esse tipo de observação por séculos, muito antes de existir boletim meteorológico.

O ditado acerta mais do que erra na faixa de latitude em que nasceu, para quem sabe o que está observando. O céu vermelho não causa o tempo. A cor acompanha a chegada ou a saída de um sistema e pode enganar.

Nuvens de um vermelho intenso iluminadas por baixo pela luz do sol nascente
Nuvens médias e altas iluminadas de vermelho pela luz rasante do nascer do sol. De manhã, com o sol nascendo a leste, a nuvem iluminada fica a oeste e muitas vezes é a dianteira de um sistema que se aproxima por esse lado

Por que o céu fica vermelho de manhã e de tarde

A cor vem da mesma óptica que pinta o pôr do sol de vermelho. Com o sol junto do horizonte, a luz atravessa uma coluna de ar muito mais longa que ao meio-dia. Nesse trajeto, a dispersão de Rayleigh já espalhou quase todo o azul e o verde para os lados, e sobra a luz vermelha e alaranjada. Essa luz baixa segue quase reta e ilumina, por baixo, as nuvens que estiverem no caminho. Por isso o vermelho aparece nas nuvens, que servem de anteparo e devolvem a luz vermelha ao observador; o céu limpo fica sem essa cor.

O ditado deixa de fora uma condição. Para a luz vermelha do nascente chegar até as nuvens do outro lado, o céu do lado do sol precisa estar razoavelmente limpo, sem uma parede de nuvem baixa cortando o raio. O fenômeno depende de sol de um lado, com ar transparente, e de nuvens do outro lado servindo de anteparo. Quando os dois lados estão fechados, não há vermelho nenhum, só um cinza uniforme.

Por que a hora do dia muda o sinal

O ditado se apoia na direção em que os sistemas de tempo caminham. Nas latitudes médias dos dois hemisférios, entre cerca de 30 e 60 graus, sopra o cinturão dos ventos de oeste. As áreas de alta e de baixa pressão, e as frentes que as acompanham, viajam de oeste para leste. O tempo do dia seguinte costuma estar, no momento da observação, a oeste do observador.

De manhã o sol nasce a leste. A luz dele atravessa o ar limpo e seco do lado leste, o ar de uma alta pressão que já foi embora, e ilumina por baixo as nuvens altas que chegam pelo oeste. Por isso o observador vê o céu vermelho sobre o oeste, do lado oposto ao sol. Essas nuvens costumam ser a dianteira de uma frente. O bom tempo já passou e o mau tempo se aproxima, e daí vem o aviso.

De tarde o observador olha para o oeste, onde o sol se põe. Um céu vermelho ali significa que a luz do poente está atravessando um ar limpo a oeste, de onde vem o tempo de amanhã. Ar limpo a oeste é sinal de alta pressão a caminho, e alta pressão costuma trazer céu estável e seco. Por isso o ditado associa o vermelho da tarde a um dia seguinte de tempo bom.

Onde o ditado vale no Brasil

A regra depende dos ventos de oeste, que predominam nas latitudes médias. O Brasil vai da linha do equador, no extremo norte, até cerca de 33 graus sul, no Chuí. Boa parte do país está nos trópicos, fora do cinturão de oeste, e apenas o Sul entra de fato na faixa onde o ditado nasceu.

No Sul (Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Paraná e o sul de São Paulo), as frentes frias sobem mesmo do quadrante sudoeste, empurradas pelos ventos de oeste das latitudes médias. Ali o ditado se sai bem, e um amanhecer muito vermelho antes de uma frente que se anuncia costuma valer como aviso. No Norte e no Nordeste, o regime é outro. Dominam os ventos alísios, que sopram de leste, e a chuva vem mais da convecção da tarde, aquelas pancadas que se formam no calor local, do que de frentes organizadas vindas de oeste. Nesses lugares um céu vermelho de manhã diz pouco sobre a chuva da tarde.

Confiabilidade do ditado por região do Brasil, conforme o regime de tempo predominante.
RegiãoRegime dominanteDe onde vem a chuvaO ditado ajuda?
SulLatitudes médias, ventos de oesteFrentes frias, de sudoesteSim, com cautela
SudesteTransiçãoFrentes e convecçãoÀs vezes
Centro-OesteTropical, estação seca e chuvosaConvecção e frentes esporádicasÀs vezes
NordesteAlísios de lesteConvecção, ondas de lestePouco
NorteEquatorial, alísiosConvecção da tardePouco

Poeira, umidade e tom do vermelho

A intensidade do vermelho também informa sobre o estado do ar. Ar seco e cheio de poeira, típico de uma alta pressão parada, deixa passar os alaranjados e vermelhos e segura o resto, o que produz céus de tons mais fortes. Ar úmido, com gotículas maiores, tende a espalhar a luz de forma menos seletiva e a atenuar a cor, deixando tons mais pálidos ou acinzentados.

Por isso um pôr do sol de vermelho profundo, com ar seco e estável a oeste, é um bom presságio nas latitudes médias, porque aquele ar seco vem na direção do observador. Já um amanhecer vermelho carregado, com nuvens médias e altas se adensando a oeste, costuma preceder a chegada de umidade e da frente. A cor funciona como medida grosseira da limpeza e da secura do ar por onde a luz passou.

Limites do ditado

A previsão moderna, feita com satélite, radar e modelos numéricos, vai além de qualquer regra de céu. O ditado tem estes limites:

  • Só enxerga o oeste e o leste. Tempestades que se formam ao sul ou ao norte, ou que nascem localmente por convecção, escapam da lógica dele.
  • Precisa da geometria certa. Sem um lado limpo e outro com nuvens de anteparo, a cor não aparece, e a ausência de vermelho não significa bom tempo.
  • Não mede intensidade. A cor indica que um sistema se aproxima, sem dizer se ele trará garoa fraca ou temporal.
  • Falha nos trópicos. Fora do cinturão de oeste, os sistemas não caminham de forma tão previsível de oeste para leste.

Fumaça de queimada complica ainda mais a leitura. Entre agosto e outubro, a fumaça de incêndios na Amazônia e no Pantanal deixa o céu de muitas cidades vermelho ao amanhecer e ao entardecer sem que isso tenha qualquer relação com frente ou chuva.

Três crenças comuns sobre o céu vermelho

  • "O céu vermelho causa a tempestade." Falso. A cor é consequência da geometria da luz e da limpeza do ar. Ela pode acompanhar a chegada de um sistema, mas não o provoca.
  • "O ditado vale igual no mundo todo." Falso. Ele nasceu na Europa, em plena faixa dos ventos de oeste. Perto do equador, onde os alísios sopram de leste, a lógica se enfraquece.
  • "Se não há vermelho, o tempo está garantido." Falso. A falta de cor pode vir só da falta de nuvens no lugar certo para servir de anteparo, com mau tempo a caminho.

Uso do ditado a olho nu

Para quem navega, pesca ou acampa no Sul do Brasil, o ditado ainda serve como alerta barato, combinado com outros sinais. Um amanhecer muito vermelho, com nuvens altas do tipo cirros se espalhando a oeste e o vento rondando para o quadrante norte, é um conjunto que pede atenção nas próximas horas. Já um pôr do sol limpo e alaranjado a oeste, com o ar seco, reforça a aposta de um dia seguinte tranquilo.

Além da cor, o horário do nascer, do pôr e da luz de transição de cada cidade fica no cálculo diário do sol, com Porto Alegre como exemplo, e a evolução da luz baixa aparece na página de crepúsculo.

Perguntas frequentes

O ditado "céu vermelho de manhã, marinheiro se avisa" é verdade?
Tem base parcial e depende da latitude. Nas faixas entre 30 e 60 graus, onde os sistemas de tempo caminham de oeste para leste, um amanhecer vermelho costuma indicar que o ar limpo já passou e uma frente com chuva se aproxima pelo oeste. Perto do equador, onde os ventos alísios sopram de leste, a regra perde força.
Por que o céu fica vermelho de manhã e de tarde?
Pela mesma óptica do pôr do sol. Com o sol junto do horizonte, a luz cruza muito mais ar, a dispersão de Rayleigh remove o azul e o verde, e sobra a luz vermelha, que ilumina por baixo as nuvens do lado oposto. O vermelho só aparece com nuvens servindo de anteparo e com um lado do céu limpo.
Por que a hora do dia muda o significado da cor?
Porque nas latitudes médias o tempo caminha de oeste para leste. De manhã o sol nasce a leste e ilumina por baixo as nuvens que chegam pelo oeste, e o observador vê o céu vermelho sobre o oeste, um aviso. De tarde ele olha o oeste, e o vermelho vem de ar limpo a oeste, de onde virá o tempo do dia seguinte, sinal de bom tempo.
O ditado funciona no Brasil?
Funciona bem no Sul (RS, SC, PR e sul de SP), que está na faixa dos ventos de oeste e recebe frentes frias de sudoeste. No Norte e no Nordeste, dominados pelos alísios de leste e pela chuva de convecção da tarde, a regra ajuda pouco.
O céu vermelho causa a tempestade?
Não. A cor é consequência da geometria da luz e da limpeza do ar. Ela pode acompanhar a chegada de um sistema, mas não o provoca. Além disso, fumaça de queimada deixa o céu vermelho sem qualquer relação com chuva.
O ditado substitui a previsão do tempo?
Não. É um alerta barato a olho nu, útil combinado com outros sinais, mas cego para tempestades que se formam ao sul, ao norte ou localmente. Satélite, radar e modelos numéricos continuam sendo a base da previsão moderna.