Pular para o conteúdo
nascerepordosol

Ciência do céu

Crepúsculo náutico: por que o navegante mede as estrelas nele

Navegantes usam o crepúsculo náutico para medir estrelas com o sextante, prática que ainda é ensinada na era do GPS.

Por Equipe RCG Websites 10 min de leitura

O navegante tira a posição do navio pelas estrelas durante o crepúsculo náutico, o intervalo em que o sol está entre 6° e 12° abaixo do horizonte, porque só nele duas coisas acontecem ao mesmo tempo: a linha do horizonte no mar ainda é nítida contra o céu e as estrelas mais brilhantes já apareceram. O sextante mede o ângulo entre um astro e o horizonte, então precisa dos dois visíveis no mesmo instante. Antes disso o céu é claro demais e as estrelas somem; depois, o horizonte se apaga e não há de onde medir. Essa janela é curta, de 25 a 36 minutos no Brasil, e a Marinha ainda ensina a usá-la, com sextante, como reserva para quando o GPS falha.

Brasília, DF · hoje

pôr em3 h 32 min
nascer 05:35
pôr 18:16
Crepúsculo hoje
18:39
fim do civil
náutico 19:05, astronômico 19:32

Por que o sextante precisa de estrela e horizonte ao mesmo tempo

A importância da hora vem do funcionamento do instrumento. O sextante mede o ângulo entre um astro e a linha do horizonte, a altura do astro acima do mar. Com esse ângulo, a hora exata e algumas tabelas, o navegante calcula uma linha sobre a qual o navio está. Com duas ou três dessas linhas, tiradas de estrelas diferentes, o ponto onde elas se cruzam é a posição do barco.

A medida exige os dois elementos visíveis ao mesmo tempo. De dia, o horizonte é perfeito, mas só o sol e, às vezes, a lua estão à mão; as estrelas ficam apagadas pela claridade. Já na noite fechada as estrelas cobrem o céu, mas o horizonte some na escuridão e não há linha de referência para apoiar o instrumento. O crepúsculo náutico é o único trecho do dia em que os dois aparecem juntos, e por isso a fase recebeu esse nome.

Marinheira olhando por um sextante marítimo no convés de um navio de guerra, medindo a altura de um astro sobre o horizonte
Uma quartel-mestre usa o sextante a bordo do porta-aviões USS George Washington. O instrumento mede o ângulo entre um astro e a linha do horizonte, e só o crepúsculo náutico oferece os dois ao mesmo tempo

Onde ficam os 6° e os 12°

Depois que o sol se põe, ele continua descendo abaixo do horizonte, e a profundidade dele em graus define os estágios do crepúsculo. O civil vai do pôr do sol até o sol a 6° abaixo; o náutico, de 6° a 12°; o astronômico, de 12° a 18°. Cada fronteira resolve um problema concreto, e a dos 12° é a da navegação. Antes de 6°, ainda há claridade civil demais e poucas estrelas visíveis para medir com segurança. Passados os 12°, o horizonte marítimo já não se distingue do mar escuro, e o sextante fica sem referência. A explicação completa dos três estágios está em crepúsculo civil, náutico e astronômico.

Na prática, a janela útil não coincide com a faixa náutica inteira. Os navegadores costumam começar a "atirar", como dizem no jargão, um pouco antes, ainda no fim do civil, quando surgem as primeiras estrelas de primeira grandeza e o horizonte está mais nítido. As medidas se concentram no meio do crepúsculo náutico, e o fim dele, aos 12°, é o limite.

Duração da janela do sextante por cidade

O tempo disponível para o navegante depende da latitude e da época do ano, que decidem a inclinação com que o sol desce. Perto do equador ele desce quase na vertical e percorre os graus depressa; longe do equador desce inclinado e demora mais. A tabela traz a duração da faixa náutica (de 6° a 12° abaixo do horizonte) no entardecer de algumas cidades do litoral e do interior, calculada pelo motor astronômico do site.

Duração do crepúsculo náutico vespertino (do sol a 6° até 12° abaixo do horizonte), em minutos. Calculado pelo motor do site para 2026.
CidadeLatitudeEquinócio (20/mar)Solstício de verão (21/dez)
Belém, PA1,5° S24 min26 min
Fortaleza, CE3,7° S24 min26 min
Salvador, BA13,0° S25 min28 min
São Paulo, SP23,5° S26 min30 min
Porto Alegre, RS30,0° S28 min33 min
Chuí, RS33,7° S29 min36 min

A janela dura no máximo cerca de meia hora. Com o convés em movimento, nuvens no horizonte e a necessidade de identificar as estrelas certas antes que sumam, a formação clássica treinava o oficial para tirar várias medidas em poucos minutos. A janela da manhã segue a ordem inversa e começa com o sol a 12° abaixo do horizonte a leste e vai clareando até as estrelas apagarem, pouco antes do nascer.

Um entardecer em Salvador, minuto a minuto

A tabela traz a sequência de um entardecer em Salvador, no equinócio de 20 de março de 2026 (horário de Brasília), calculada pelo motor do site. A coluna do meio marca as fronteiras que importam para o sextante.

Entardecer em Salvador (BA), 20 de março de 2026. A janela do sextante é a faixa entre o fim do crepúsculo civil e o fim do náutico. Calculado pelo motor do site.
MomentoHorárioO que muda
Pôr do sol17:44O disco cruza o horizonte. Céu ainda claro.
Sol a 6° abaixo18:05Fim do civil. Começa a janela náutica. Surgem as estrelas brilhantes.
Sol a 12° abaixo18:30Fim do náutico e da janela. O horizonte no mar se apaga.
Sol a 18° abaixo18:55Noite escura. Muitas estrelas, nenhum horizonte para medir.

Foram 25 minutos de janela, das 18:05 às 18:30. Na manhã do mesmo dia, a janela vai das 4:52 (sol a 12° abaixo) às 5:16 (sol a 6°), fechando pouco antes do nascer, às 5:37. Os horários de nascer, pôr e crepúsculo de cada cidade estão na página de crepúsculo e na de nascer e pôr do sol.

BMNT e EENT, as siglas de uso militar

Fora do meio civil, o crepúsculo náutico virou vocabulário operacional. As forças armadas de vários países planejam operações em torno de duas siglas ligadas justamente à fronteira dos 12°.

  • BMNT, de Begin Morning Nautical Twilight, o início do crepúsculo náutico da manhã. É o instante em que o sol chega a 12° abaixo do horizonte a leste e o céu começa a clarear de leve. Marca o primeiro momento em que já é possível distinguir vultos e o horizonte, muito antes do nascer do sol.
  • EENT, de End Evening Nautical Twilight, o fim do crepúsculo náutico da tarde, quando o sol atinge os mesmos 12° abaixo do horizonte a oeste e a escuridão se fecha.

Entre o BMNT e o nascer, e entre o pôr e o EENT, fica a chamada meia-luz, clara o bastante para se mover e enxergar o terreno, escura o bastante para dificultar ser visto de longe. Por isso essas duas fronteiras entram nos planos de operação até hoje, sem nenhuma relação com sextante.

Por que a navegação astronômica ainda é ensinada na era do GPS

O treino de oficiais de marinha para medir estrelas com um instrumento do século XVIII continua em uso. A Academia Naval dos Estados Unidos, que havia cortado a disciplina de navegação astronômica por volta de 1998 e encerrado o treino na frota em 2006, reintroduziu o assunto em 2015. O motivo é que sistemas de GPS podem ser derrubados, bloqueados ou enganados por ataque cibernético, e o sextante é um método de reserva que não depende de satélite, sinal de rádio nem energia elétrica, e por isso não pode ser invadido.

O curso reintroduzido é curto, com poucas horas de teoria, bem menos que a formação de antigamente. A habilidade de achar a posição no oceano só com o céu, um relógio e tabelas continua sendo um recurso de última instância, e depende da janela de meia hora do crepúsculo náutico, quando estrela e horizonte aparecem juntos.

As estrelas que o navegante procura

A navegação astronômica trabalha com uma lista curta de astros escolhidos por serem brilhantes, bem espalhados pelo céu e fáceis de identificar. As tabelas oficiais, como o Nautical Almanac, trazem 57 estrelas de navegação selecionadas, mais a Polar, com posições calculadas para o ano inteiro. Nomes como Sirius, Canopus, Rigel, Arcturus e Achernar estão nessa lista, ao lado de planetas como Vênus, Júpiter e Saturno, que também rendem boas medidas.

A escolha prática obedece à geometria. O ideal é medir estrelas separadas por bons ângulos entre si, de preferência umas 120° ao redor, para que as linhas de posição se cruzem em ângulos abertos e o ponto fique nítido. Duas estrelas quase na mesma direção dariam linhas quase paralelas, e o cruzamento sairia impreciso. Por isso o oficial treinado planejava, antes de a janela abrir, quais astros mediria e em que ordem, para não perder tempo procurando no céu durante os poucos minutos do crepúsculo náutico. A mais fácil de todas costuma ser a primeira a aparecer, Vênus, a estrela d'alva, que é o astro mais brilhante do crepúsculo e brilha forte ainda no fim do crepúsculo civil.

Manhã e tarde, o mesmo mecanismo ao contrário

O que vale para o entardecer vale para a alvorada, em ordem inversa. De manhã, o navegante começa a preparar o sextante ainda no escuro e espera o céu clarear o suficiente para o horizonte reaparecer, sem que as estrelas tenham sumido. O prazo é o mesmo da tarde, com a diferença de que agora o horizonte ganha nitidez enquanto as estrelas perdem brilho. O ponto ideal é o meio do crepúsculo náutico da manhã, entre o BMNT e o instante em que as estrelas de referência começam a apagar. Perto do equador essa janela é a mais curta do planeta; longe dele, o navegante tem alguns minutos a mais, como mostra a tabela por cidade.

Perguntas frequentes

O que é o crepúsculo náutico?
É o estágio do crepúsculo em que o sol está entre 6 e 12 graus abaixo do horizonte. Nele, a linha do horizonte no mar ainda se distingue contra o céu e as estrelas mais brilhantes já apareceram. Antes dele o céu é claro demais e as estrelas somem; depois, o horizonte se apaga.
Por que o sextante só funciona no crepúsculo náutico?
Porque o sextante mede o ângulo entre um astro e a linha do horizonte, e precisa dos dois visíveis ao mesmo tempo. De dia só há o sol e o horizonte, sem estrelas; de noite há estrelas, mas o horizonte marítimo some. O crepúsculo náutico é o único trecho do dia com estrela e horizonte juntos.
Quanto dura a janela do sextante no Brasil?
Depende da latitude e da época. A faixa náutica (de 6 a 12 graus abaixo do horizonte) dura cerca de 24 minutos em Belém e Fortaleza, perto do equador, e chega a 36 minutos no Chuí (RS) em pleno verão. Perto do equador o sol desce quase na vertical, e a janela é a mais curta.
O que significam BMNT e EENT?
São siglas militares. BMNT (Begin Morning Nautical Twilight) é o início do crepúsculo náutico da manhã, quando o sol chega a 12 graus abaixo do horizonte a leste. EENT (End Evening Nautical Twilight) é o fim do náutico da tarde, com o sol a 12 graus abaixo a oeste. As forças armadas usam essas fronteiras para planejar operações na meia-luz.
A Marinha ainda ensina navegação pelas estrelas?
Sim. A Academia Naval dos Estados Unidos havia cortado a disciplina por volta de 1998 e encerrado o treino na frota em 2006, mas reintroduziu a navegação astronômica em 2015. O motivo é ter uma reserva para quando o GPS é bloqueado, enganado ou derrubado por ataque cibernético, já que o sextante não depende de satélite nem de energia.
Como o navegante acha a posição do navio com o sextante?
Ele mede a altura de duas ou três estrelas sobre o horizonte, anota a hora exata de cada medida e, com tabelas astronômicas, converte cada uma numa linha de posição sobre a qual o navio está. O ponto onde essas linhas se cruzam é a posição do barco. Tudo isso precisa ser feito na janela do crepúsculo náutico.