Crepúsculo civil, náutico e astronômico: o que é cada um
O céu passa por estágios de claridade entre o pôr do sol e a noite fechada, cada um com uso próprio na navegação e na astronomia.
Ler artigo →Ciência do céu
Navegantes usam o crepúsculo náutico para medir estrelas com o sextante, prática que ainda é ensinada na era do GPS.
O navegante tira a posição do navio pelas estrelas durante o crepúsculo náutico, o intervalo em que o sol está entre 6° e 12° abaixo do horizonte, porque só nele duas coisas acontecem ao mesmo tempo: a linha do horizonte no mar ainda é nítida contra o céu e as estrelas mais brilhantes já apareceram. O sextante mede o ângulo entre um astro e o horizonte, então precisa dos dois visíveis no mesmo instante. Antes disso o céu é claro demais e as estrelas somem; depois, o horizonte se apaga e não há de onde medir. Essa janela é curta, de 25 a 36 minutos no Brasil, e a Marinha ainda ensina a usá-la, com sextante, como reserva para quando o GPS falha.
Brasília, DF · hoje
A importância da hora vem do funcionamento do instrumento. O sextante mede o ângulo entre um astro e a linha do horizonte, a altura do astro acima do mar. Com esse ângulo, a hora exata e algumas tabelas, o navegante calcula uma linha sobre a qual o navio está. Com duas ou três dessas linhas, tiradas de estrelas diferentes, o ponto onde elas se cruzam é a posição do barco.
A medida exige os dois elementos visíveis ao mesmo tempo. De dia, o horizonte é perfeito, mas só o sol e, às vezes, a lua estão à mão; as estrelas ficam apagadas pela claridade. Já na noite fechada as estrelas cobrem o céu, mas o horizonte some na escuridão e não há linha de referência para apoiar o instrumento. O crepúsculo náutico é o único trecho do dia em que os dois aparecem juntos, e por isso a fase recebeu esse nome.

Depois que o sol se põe, ele continua descendo abaixo do horizonte, e a profundidade dele em graus define os estágios do crepúsculo. O civil vai do pôr do sol até o sol a 6° abaixo; o náutico, de 6° a 12°; o astronômico, de 12° a 18°. Cada fronteira resolve um problema concreto, e a dos 12° é a da navegação. Antes de 6°, ainda há claridade civil demais e poucas estrelas visíveis para medir com segurança. Passados os 12°, o horizonte marítimo já não se distingue do mar escuro, e o sextante fica sem referência. A explicação completa dos três estágios está em crepúsculo civil, náutico e astronômico.
Na prática, a janela útil não coincide com a faixa náutica inteira. Os navegadores costumam começar a "atirar", como dizem no jargão, um pouco antes, ainda no fim do civil, quando surgem as primeiras estrelas de primeira grandeza e o horizonte está mais nítido. As medidas se concentram no meio do crepúsculo náutico, e o fim dele, aos 12°, é o limite.
O tempo disponível para o navegante depende da latitude e da época do ano, que decidem a inclinação com que o sol desce. Perto do equador ele desce quase na vertical e percorre os graus depressa; longe do equador desce inclinado e demora mais. A tabela traz a duração da faixa náutica (de 6° a 12° abaixo do horizonte) no entardecer de algumas cidades do litoral e do interior, calculada pelo motor astronômico do site.
| Cidade | Latitude | Equinócio (20/mar) | Solstício de verão (21/dez) |
|---|---|---|---|
| Belém, PA | 1,5° S | 24 min | 26 min |
| Fortaleza, CE | 3,7° S | 24 min | 26 min |
| Salvador, BA | 13,0° S | 25 min | 28 min |
| São Paulo, SP | 23,5° S | 26 min | 30 min |
| Porto Alegre, RS | 30,0° S | 28 min | 33 min |
| Chuí, RS | 33,7° S | 29 min | 36 min |
A janela dura no máximo cerca de meia hora. Com o convés em movimento, nuvens no horizonte e a necessidade de identificar as estrelas certas antes que sumam, a formação clássica treinava o oficial para tirar várias medidas em poucos minutos. A janela da manhã segue a ordem inversa e começa com o sol a 12° abaixo do horizonte a leste e vai clareando até as estrelas apagarem, pouco antes do nascer.
A tabela traz a sequência de um entardecer em Salvador, no equinócio de 20 de março de 2026 (horário de Brasília), calculada pelo motor do site. A coluna do meio marca as fronteiras que importam para o sextante.
| Momento | Horário | O que muda |
|---|---|---|
| Pôr do sol | 17:44 | O disco cruza o horizonte. Céu ainda claro. |
| Sol a 6° abaixo | 18:05 | Fim do civil. Começa a janela náutica. Surgem as estrelas brilhantes. |
| Sol a 12° abaixo | 18:30 | Fim do náutico e da janela. O horizonte no mar se apaga. |
| Sol a 18° abaixo | 18:55 | Noite escura. Muitas estrelas, nenhum horizonte para medir. |
Foram 25 minutos de janela, das 18:05 às 18:30. Na manhã do mesmo dia, a janela vai das 4:52 (sol a 12° abaixo) às 5:16 (sol a 6°), fechando pouco antes do nascer, às 5:37. Os horários de nascer, pôr e crepúsculo de cada cidade estão na página de crepúsculo e na de nascer e pôr do sol.
Fora do meio civil, o crepúsculo náutico virou vocabulário operacional. As forças armadas de vários países planejam operações em torno de duas siglas ligadas justamente à fronteira dos 12°.
Entre o BMNT e o nascer, e entre o pôr e o EENT, fica a chamada meia-luz, clara o bastante para se mover e enxergar o terreno, escura o bastante para dificultar ser visto de longe. Por isso essas duas fronteiras entram nos planos de operação até hoje, sem nenhuma relação com sextante.
O treino de oficiais de marinha para medir estrelas com um instrumento do século XVIII continua em uso. A Academia Naval dos Estados Unidos, que havia cortado a disciplina de navegação astronômica por volta de 1998 e encerrado o treino na frota em 2006, reintroduziu o assunto em 2015. O motivo é que sistemas de GPS podem ser derrubados, bloqueados ou enganados por ataque cibernético, e o sextante é um método de reserva que não depende de satélite, sinal de rádio nem energia elétrica, e por isso não pode ser invadido.
O curso reintroduzido é curto, com poucas horas de teoria, bem menos que a formação de antigamente. A habilidade de achar a posição no oceano só com o céu, um relógio e tabelas continua sendo um recurso de última instância, e depende da janela de meia hora do crepúsculo náutico, quando estrela e horizonte aparecem juntos.
A navegação astronômica trabalha com uma lista curta de astros escolhidos por serem brilhantes, bem espalhados pelo céu e fáceis de identificar. As tabelas oficiais, como o Nautical Almanac, trazem 57 estrelas de navegação selecionadas, mais a Polar, com posições calculadas para o ano inteiro. Nomes como Sirius, Canopus, Rigel, Arcturus e Achernar estão nessa lista, ao lado de planetas como Vênus, Júpiter e Saturno, que também rendem boas medidas.
A escolha prática obedece à geometria. O ideal é medir estrelas separadas por bons ângulos entre si, de preferência umas 120° ao redor, para que as linhas de posição se cruzem em ângulos abertos e o ponto fique nítido. Duas estrelas quase na mesma direção dariam linhas quase paralelas, e o cruzamento sairia impreciso. Por isso o oficial treinado planejava, antes de a janela abrir, quais astros mediria e em que ordem, para não perder tempo procurando no céu durante os poucos minutos do crepúsculo náutico. A mais fácil de todas costuma ser a primeira a aparecer, Vênus, a estrela d'alva, que é o astro mais brilhante do crepúsculo e brilha forte ainda no fim do crepúsculo civil.
O que vale para o entardecer vale para a alvorada, em ordem inversa. De manhã, o navegante começa a preparar o sextante ainda no escuro e espera o céu clarear o suficiente para o horizonte reaparecer, sem que as estrelas tenham sumido. O prazo é o mesmo da tarde, com a diferença de que agora o horizonte ganha nitidez enquanto as estrelas perdem brilho. O ponto ideal é o meio do crepúsculo náutico da manhã, entre o BMNT e o instante em que as estrelas de referência começam a apagar. Perto do equador essa janela é a mais curta do planeta; longe dele, o navegante tem alguns minutos a mais, como mostra a tabela por cidade.