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A Via Láctea só aparece no fim do crepúsculo astronômico, com o sol a -18 graus. Veja quanto tempo após o pôr do sol o céu escurece.
A Via Láctea só aparece depois que o céu escurece de verdade, e "de verdade" tem uma definição astronômica exata: o fim do crepúsculo astronômico, quando o sol chega a mais de 18 graus abaixo do horizonte. Antes disso, mesmo com o sol fora de vista há um bom tempo, sobra no céu um brilho difuso que apaga as estrelas fracas e o rio de poeira da galáxia. Esse instante depende só de onde o sol está, então muda com a sua cidade e a época do ano: perto do equador o céu fecha em cerca de 70 minutos depois do pôr do sol, e no extremo sul do Brasil, no verão, pode levar quase uma hora e meia. Veja a que horas o céu fica realmente escuro na sua cidade em crepúsculo.
Todo iniciante começa achando que o problema é a câmera. Não é. O que separa uma foto vazia de uma foto com a galáxia inteira é a quantidade de luz que ainda sobra no céu, e essa luz é a última sobra do sol, mesmo depois de ele já ter se posto.
Quando o sol se põe, ele não apaga o céu de uma vez. Ele continua iluminando o ar lá no alto por um bom tempo, porque ainda ilumina as camadas altas da atmosfera que você enxerga na direção do horizonte. Os astrônomos dividem essa despedida em três degraus, pela profundidade do sol abaixo da linha do horizonte. Até 6 graus abaixo, é o crepúsculo civil, com o céu ainda claro. Entre 6 e 12, o náutico, quando o mar e o céu deixam de se distinguir. E entre 12 e 18 graus, o crepúsculo astronômico, o último resíduo de claridade. Passou dos 18 graus, o céu está tão escuro quanto vai ficar naquela noite, e aí, e só aí, a Via Láctea aparece por inteiro.
Repare no que isso quer dizer na prática. A foto não depende de uma hora do relógio nem de "estar de noite". Depende de o sol ter afundado 18 graus. Um fotógrafo que chega ao ponto escolhido logo depois do pôr do sol e monta o tripé às pressas vai fotografar um céu ainda lavado de claridade e não vai entender por que a galáxia não está lá. Ela está: falta o céu terminar de escurecer.
O tempo entre o sol sumir no horizonte e o céu ficar totalmente preto não é o mesmo em todo lugar. Ele depende do ângulo com que o sol desce, e esse ângulo depende da latitude. Perto do equador, o sol mergulha quase na vertical, afunda rápido e o céu fecha depressa. Longe do equador, no sul do Brasil, o sol desce de esguelha, arrasta o crepúsculo e demora mais para chegar aos 18 graus, sobretudo no verão. A tabela mostra a diferença com números reais, calculados pelo motor do site.
| Cidade (latitude) | Inverno (21 jun) | Verão (21 dez) |
|---|---|---|
| Boa Vista (2,8° N) | 76 min | 75 min |
| Fortaleza (3,7° S) | 75 min | 76 min |
| Recife (8,0° S) | 75 min | 77 min |
| Brasília (15,8° S) | 77 min | 81 min |
| São Paulo (23,5° S) | 81 min | 88 min |
| Porto Alegre (30,0° S) | 86 min | 97 min |
| Chuí (33,7° S) | 89 min | 104 min |
Um exemplo fecha a ideia. Em São Paulo, numa noite de dezembro, o sol se põe por volta das 18h52, mas o céu só fica realmente escuro às 20h20, quase uma hora e meia depois. Quem marcou a saída pelo horário do pôr do sol perde esse tempo todo esperando à toa, ou desiste antes da hora certa. Já em Fortaleza, o mesmo escurecimento leva pouco mais de setenta minutos o ano inteiro, porque lá, quase em cima da linha do equador, a duração do crepúsculo quase não muda de estação para estação. Consultar o fim do crepúsculo astronômico da sua cidade em crepúsculo transforma essa espera de aposta em plano.
Vencido o crepúsculo, ainda há um segundo inimigo da foto, e também é uma questão de luz refletida do sol. Uma noite iluminada pela lua tem o céu lavado por um brilho suave que apaga as estrelas fracas e some com o contraste da Via Láctea, do mesmo jeito que o crepúsculo, só que a noite inteira. Por isso a regra é escolher uma noite escura, sem luar, com a lua fora do céu na janela em que você vai fotografar.
Não é preciso decorar calendário nenhum para isso. A página de cada cidade no site já classifica quão clara ou escura a noite fica, e basta procurar as noites escuras do mês. O que você quer é o céu mais preto possível: sem sobra de crepúsculo e sem claridade da lua, as duas coisas resolvidas antes de sair de casa.
A parte mais espetacular da Via Láctea é o núcleo galáctico, a região densa e brilhante na direção da constelação de Sagitário, com o rio de estrelas e as manchas escuras de poeira. Ele não fica visível o ano todo. Some quando está do mesmo lado que o sol e reaparece quando se afasta dele no céu, e é aí que entra a temporada.
No Hemisfério Sul, o núcleo fica ao alcance de fevereiro a outubro. No começo (fevereiro a abril), ele nasce de madrugada, no sudeste, pouco antes de o céu começar a clarear. No meio (maio a julho), já está bem alto por boa parte da noite, e essa é a melhor fase, porque coincide com as noites longas e escuras do inverno. No fim (agosto a outubro), aparece logo depois de o céu escurecer e se põe cedo. Entre novembro e janeiro, o núcleo fica encostado no sol e se perde na claridade, indisponível.
Estar no Brasil ajuda muito aqui. O centro da galáxia mora no céu do Sul, então quem observa daqui o vê passar bem alto, às vezes quase a pino, e por mais tempo. Quem tenta a mesma foto na Europa ou nos Estados Unidos pega o núcleo raspando o horizonte, atrás da bruma. Do interior de Minas, do sertão nordestino ou do cerrado goiano, ele sobe muito melhor.

Com o céu enfim escuro, começa a parte técnica, e ela é curta. A Terra gira, então as estrelas se movem no céu. Se a exposição for longa demais, cada estrela vira um risco em vez de um ponto. A regra 500 estima quanto tempo você pode deixar o obturador aberto antes que o rastro apareça: divida 500 pela distância focal da lente, no equivalente a full frame.
Se a sua câmera tem sensor menor (APS-C ou micro 4/3), multiplique a focal pelo fator de corte antes de dividir, ou use a regra dos 300 para APS-C. A 500 é aproximada e generosa. As câmeras de hoje têm muitos megapixels, e ampliando a foto você vê que ela já deixa passar um risquinho. Quem quer precisão troca por uma conta mais fina, a regra NPF, criada por Frédéric Michaud para a Sociedade Astronômica da França, que leva em conta a densidade de pixels, a abertura e a focal. Para começar, a 500 basta e cabe na cabeça.
Astrofotografia de paisagem é quase sempre a mesma receita: abertura no máximo, ISO alto, exposição no limite da regra 500. Você abre tudo porque falta luz, que é o ponto de partida de tudo aqui. A tabela mostra combinações comuns conforme a lente.
| Lente | Abertura | ISO | Velocidade (regra 500) | Foco |
|---|---|---|---|---|
| 14 – 16 mm | f/2.8 | 3200 | 30 – 35 s | infinito, manual |
| 20 – 24 mm | f/1.8 – f/2.8 | 1600 – 3200 | 20 – 25 s | numa estrela brilhante |
| 35 mm | f/1.8 | 1600 – 3200 | 14 s | manual, tela ampliada |
| 50 mm | f/1.8 | 1600 | 10 s | manual, tela ampliada |
Dá para começar com o que já se tem. O essencial é curto.
Celular também entra no jogo. Modelos recentes têm modo noturno e modo pro com exposição de vários segundos. Apoiado num tripé pequeno, um bom celular já registra o arco da Via Láctea, com mais ruído e menos detalhe que uma câmera dedicada, mas suficiente para a primeira vez. Se você fotografa com o telefone, as técnicas gerais de luz baixa valem em como fotografar o pôr do sol no celular.
Depois do crepúsculo e da claridade da noite, o terceiro fator de luz é a cidade. Poluição luminosa mata a Via Láctea. Do centro de uma capital você não a vê nem a olho nu. A regra prática é se afastar até o clarão alaranjado no horizonte, na direção da cidade, quase sumir. No Brasil isso costuma pedir uma hora ou mais de estrada rumo ao interior, à serra ou ao litoral desabitado, com horizonte aberto para o sul e o sudeste, por onde o núcleo sobe. Bons destinos existem por todo o país: a Chapada dos Veadeiros em Goiás, a Serra da Canastra em Minas, o sertão nordestino, o Pantanal, os campos gaúchos.
Quase todo iniciante tropeça nos mesmos pontos. Sair pelo horário do pôr do sol e não esperar o fim do crepúsculo astronômico, e por isso fotografar um céu ainda claro. Escolher uma noite de luar e achar que faz noite escura. Deixar o foco no automático e voltar com estrelas borradas. Usar ISO baixo demais por medo do ruído e obter um céu preto e vazio, quando o certo era 1600 ou 3200 com um leve tratamento depois. E, o mais comum, subestimar o frio e a paciência: a foto sai de madrugada, longe de tudo, por tentativa e erro. A primeira noite raramente dá a imagem dos sonhos, e tudo bem. A segunda já é bem melhor. Antes de sair, cheque a previsão de nuvens e confirme o fim do crepúsculo astronômico na sua localidade, porque é a partir dele que a foto fica possível.